Verdade

Quero te contar um negócio, só cá, entre nós, que eu sei que vi! Certeza. Mas… Nossa!

Ele a segurava como se fosse coisa, como se fosse mastro que desse a guia exata para todos os rumos: asfalto, mar e planos altos. Como se fosse mastro que nem se preocupava com o leme, com vela e com casco. Ele a abrilhantava mais do que graxa de sapato, dizia ser de dourado suas cores e a erguia sobre cabeça como se troféu fosse.

E eu, desatinado, me retia a estibordo muitíssimo enjoado em ter de estar em sua companhia nessa viagem transatlântica. As ondas subiam e desciam e eu mais louco ficava, louco endoidava, e pensava: e se eu roubar a coisa? E se eu sumir com ela? Poderia assim dar posse dela aos porcos – que não sabendo do que se tratava, a engoliriam, e o problema estaria resolvido por algum tempo. Porém, na maré mais cheia, quando a lua está mais desapaixonada, o refluxo surgiria, o mal estar tomaria parte da jogatina suja. Engolir coisas sem saber o quê de sua coisura nunca é bom, diria o médico. Porcos, honestos que são, me devolveriam a coisa… E o que fazer dela?

Meu olho pestanejava, o Sol se escovava entre as nuvens e pouco a pouco seu brilho ia aumentado. O primeiro contato com o calor é sempre bom: ele começa por alterar seu estado molecular, sem contanto que sua fase mude num súbito. Se ao menos eu pudesse matar… Matar também não era uma boa opção. A justificativa do homicídio daria razão e causa à coisa – mal inicial que afetou os porcos.

Enquanto eu esperava, debruçado ao apoio do navio, esperando que os raios solares penetrassem assim, também devagar, pelos meus poros e ajudassem a clarificar a minha mente tão perturbada, um aglomerado de 3 pessoas se juntava agora para olhar debaixo da escotilha a coisa que o moço erguia, que agora tinha voz própria e se auto enunciava dourada. Que absurdo! Que grau complicadíssimo de metamorfose que nunca jamais transpassaria pelos meus pensamentos doentios. Era penoso ver e ouvir uma coisa que não existia ganhar voz própria e começar a caminhar com pernas peludas pelo convés.

Eu temia – temia mais do que a morte, ver com meus próprios olhos aquela coisa que uma vez fora só vento de pensamento humano, se meter numa vasilha extremamente compacta e lacrada de carne e osso. Eu temia por demais. Quem sabe, se fosse alto e belo, timbrasse palavras c’uma afinação de tenor, possuísse olhos castanhos miúdos e puxados, pele morena d’ouro bronzeada, eu também, um ser que se acreditava a salvo de vícios e asneiras, me apaixonasse (afinal, essas eram as características físicas que sempre me atraíram aos rapazes). Daí a paixão prosseguiria de tal modo: primeiro eu elogiaria a beleza de sua aparência, contudo, ressaltando que o seu conteúdo tinha a mais alta e nobre qualidade. Segundo, eu lhe levaria flores e pediria que me acompanhasse por um passeio pelo deck, convidá-lo-ia para dançar, tomaríamos champagne e eu embriagado de todas as formas possíveis, confessaria meu amor do mais puro e honesto desjeito de parolar – afirmando que eu já não poderia mais viver sem aquela presença, sem aquele sentido de vida. Terceiro, antes de ele me responder de volta se correspondia aos meus sentimentos, se me amava como filho, ou se me dizia que era bom sermos só amigos, eu lhe diria: não importa! Não importa… Por favor coisa (pois até agora eu tinha medo também de perguntar seu verdadeiro nome. Ora! poderia ser qualquer coisa, não é mesmo? Temia ser algum daqueles nomes com ismos no final), -repetindo- Por favor, coisa! não me abnegue d’um sentimento, quero amá-lo como agora para sempre, pois amar me faz grande e me sinto crescer. Achei minha vontade de viver em toda sua coisisse! Quarto, nós finalmente nos aproximaríamos como seres sociais, trocaríamos as fábulas de nossas vidas, nossos sonhos e anseios mais próximos ao coração, faríamos promessas de apresentar cada outro a sua nova família. Mas daí… Daí ele me diria que era filho da melhor mãe do mundo. Ele era filho da Verdade, mas como ser sujeito extremamente humilde que era, não se permitiria dizer “filinho de Verdade, verdadeiro é”. Bom, não ainda, pelo menos. Quinto, e eu esperaria por esta última confissão, até minha morte. Sexto, eu morreria feliz acariciando suas pernocas peludas, mas sem nunca de fato saber se a coisa era ou não aquilo que ela dizia ser.

Por final, vomitei todos aqueles pensamentos asquerosos no oceano. Os delírios fluíram de minha boca e foram colorir a água, que se encontrava assim meio sem graça, de ressaca. Pedi desculpa aos peixes por infectar sua casa e me retirei do espaço. Depois de tanto relutar, finalmente cedi aos meus conselhos médicos e tomei aquela pílula que era anti-enjoo e anti-mais três outras coisas das quais eu não me lembrava.

Relutante, segui meus pensamentos e minha esguia perna – a da esquerda, porque nunca se pode acreditar muito na Direita… a Direita é sempre metida a esperta – até a escotilha fedorenta, adornada por ¾ de passageiros (agora um menininho de 60cm tinha se enfurnava debaixo de uma mulher, analisava seu ventre para ver se reconhecia-o como de sua mãe). A coisa estava fazendo um furor! Seu original interpretante, criador mor ou talvez apenas ejaculante não sabia mais o que fazer com ela: tinha soltado o bicho mais barbudo e cabeludo no mundo! Não tinha mais controle sobre seus pelos, tentava fugazmente aparar com uma navalha suas monocelhas, mas ele se esquiva, zunia, caiporava que nem Êre de Ocaíta.

O medo já não era mais só meu, e as pessoas se apressavam em fechar a escotilha – a coisa vinha vindo! Tinha uma aparência de feltro podre e caminhava aos solavancos disparatando pelinhos pubianos por tudo que é canto! Enquanto todos se refugiavam, a espera que a coisa passasse, fosse embora e apenas deixasse o rastro de História, o menininho do ¾ saiu pela porta se meteu a bedelhar com a fuça daquela coisa. O menininho deu uma boa olhada pra cara do coisa, e largou risada que só menino de moral magra sabia dar. A inocência crua e cruel das crianças, como matava, como salvava.

- Nossa, feio que nem peste! Sujo que nem imundo! A mãe deve ter posto quatro dentes pra fora depois de tentar beijar esse cú!

Que horror! Um menino de 60 cm que já tinha cú na boca! Aparentemente a coisa pensou a mesma coisa, pois mesmo, se arrefeceu, mostrou-se assim acanhada, sem jeito de responder assim ao menino que ria em larga escalada, píncaros de geada, nevada solene, baita de friaca que gerou em sua pose e autoestima. O alívio me veio com as palavras que eu queria ouvir. Veja bem, eu não sei mesmo se a coisa era bonita ou não, as vezes demoro para achar o carvão, abrir a porta pesada do forno e por combustão incendiar aquela calha na roda chamada opinião, comboio de corda afiada pronto para estrangular. Sorte era a minha, de ter ali um menininho de trêzquartos, cheio de ódio no coração e me dizer que aquilo não era bonito não! Por favor né, ser bichado por criança é negação máxima à possibilidade de ser amado. A coisa se encolheu, foi pro canto do balde e da esponja, se fazendo de vítima, fingindo doer a dor mesmo que doía.

Fim do teatro, a cortina desceu e os adornos saíram de trás da porta. Todo mundo foi lá em cima, tirar satisfação com o cara que tinha pensado aquela coisa. Deram uma boa d’uma pitombada na cara dele. Cheguei a ouvir algo como Ai iai iai! Não faz mais isso! da moça do ventre errado. O final do meu dia foi na cozinha, repondo aquilo que eu tinha deixado pros peixes.

Só depois de muito tempo, passado o rio Ganges, acabado a viagem, chegado em casa, é que fui perceber que eu tinha no bolso uma dessas coisas. Côisa, sabe? Coisa mesmo. Dessas que a gente acha que cria e descobre sozinha e tem vontade de mostrar pra quem tá perto? Foi surpreendente! Foi assim: Ham? então eu tenho uma coisa, coisa só minha? Uma coisa feito coisa mesmo, que eu acreditava que via, que brotava do suor do furo do meu bolso. Eita. Curioso. Eu via que ela também era peludinha, mas era assim, menor que um troféu, do tamanho de uma bolinha de gude. Coisa meiga, coisa fofa, coisa minha.

Metade eu engoli pra ver se digeria, a outra metade eu joguei no lixo e segui a vida.

No final do texto eu dei graças a Deus por me olhar no espelho e ver que apesar de eu usar todas essas flexões de gênero masculino eu ainda era mulher, e confiante, e alegre, e redondamente duvidosa sobre tudo.

ps: ainda dou graças à alguém porque não gosto de deixar palavras sozinhas, e Deus é um nome bunitinho, id est, cosmética ex cosmetikés.

ps2: eu esqueci o que queria te contar… Sabe, lá no começo do texto? Quando eu começo dizendo que quero contar um negócio? “Quero te contar um negócio: socar entre nós…” Mas daí aparece essa coisa e atrapalha tudo? Pois é, esqueci. Bom, devia ser coisa mentirosa então, tipo lorota bem cabeluda, sabe? Porque se é verdade, ela vive e a gente não esquece, não é mesmo? A Léti sabe.

Tardes Triviais

Um dia ela escutou que a solidão era só mais um carinho malvado do grande amor, tudo já elaborado pra gente sentir saudade. E sentiu vontade de chover e de contornar as traças e desentupir as calhas do peito, da casa, do pulmão, com todo aquele amor que tinha e cair no jardim, ir descendo fundo no solo úmido até que os girassóis, que ela cuidava todo santo dia, sentissem um pouco de saudade. Sentir a terra como parte de seu próprio corpo como sentia quando era uma menina branca, pobre e com o cabelo fora de moda. As modas que escutava do pai preenchendo-a de esperança e de desejo; daquelas cordas de violão suadas, surradas, atrasadas, ela se sentia dona dos segredos do horizonte. A iluminação tão parca criava um espectro bonito de estrelas cheias de mistérios e maldições, a mãe ríspida dizendo que não deviam olhar, que não deviam apontar, mas ora essas meninas! E ela que tola não era, olhava tudo ao redor e tudo sentia. Talvez fosse a puberdade chegando, talvez fosse porque olhava demais as estrelas e tivesse sido amaldiçoada, ou quiçá um possível castigo divino por desafinar não só uma vez as cordas do pai, mas ela crescia em suspiros.

Suspirava, e a dor que sentia era a dor dos conscientes da desgraça. Frequentava uma escola barulhenta, engolia uma sopa salobra e então começava a lavar as roupas de D. Maria e, deus me livre se chover. Era ela quem cuidava das irmãs pequenas e ignorantes; quem contava com a ausência do pai, devoto de baralhos e bebidas; e era ela quem devia lidar com o desencanto mórbido da mãe distante, enfiada numa cidade grande a cuidar do filho doente. Ainda que esquecida em um bairro esquecido de terras distantes ao norte, ela imperava entre os seus com a firmeza e doçura de meninas que se desvendam e crescem só. Tocava sorrisos, cortava cabelos, dava sermões e tirava piolhos de quem precisasse ali.

Um dia desejou morrer, e era só uma dor dente. Mas só quem já teve dor de dente como as dores de antigamente sabe o que é sentir-se um grande coração latejante, com a sístole bem no meio da gengiva, o átrio-ventricular desesperado, toda aquela dor sanguínea se espalhando pelo pescoço, pelos braços, mais a febre, mais o frio.  Foi nessa época que ela quis escrever “Ser coração dói, de todas as formas possíveis”, mas a agonia era grande e ela não alcançou o caderno de acordes a tempo: esqueceu-se. O pai não sabia o que fazer quando ouviu, no murmurante posto de saúde, que o único dentista da cidade foi de férias. A pequena transformava-se, aos poucos, em um coração puído e amarelo, dolorosamente palpitante. Podia-se ter passado dias ou meses até que apeasse, bronzeado, o dentista, dizendo: “danou-se, só resta rancar”.

Como aquelas piores dores, as dores mais necessárias para que permaneçamos vivos, soaram as palavras daquele ser vestido de branco. E eram como agulhas lá atrás na gengiva.

Ela voltou pra casa e já não se sentia mais a menina de antes, menos por não ter a metade dos dentes de outrora do que por continuar acompanhada da dor ou da lembrança da dor. O pai, italiano e desesperado por natureza, fez o que aprendeu com os índios que da região e deu-lhe fumo em papel para, dizia, apaziguar as perturbações do corpo e da alma.

E hoje ela sente que a partir daqueles dias começou a crescer, principalmente ao perceber que era preciso se portar com fugazes ímpetos de vida em cada circunstância. Assim terminou a escola, a graduação, a pós-graduação, e começou a trabalhar. E tudo isso, banguela. Banguela na alma, lá atrás. Banguela como vinha sendo desde aqueles dias, dos quais o fumo se espalhou pelo resto deles.

Não se lembra exatamente quando, mas trabalhou duro e parou de ser banguela; casou-se com um pedreiro-guarda-estudante-babá dos irmãos como ela uma vez fora, e estava certa da combinação precisa do gênio ambicioso e amalucado dos dois.

Naquele fim de tarde de maio, a mulher que ela se tornou parou para pensar que ela era chuva e que era terra de girassóis. Estava na puberdade de novo, a sentir tudo ao seu redor. Era assim que sempre acontecia quando tentava parar de fumar. Ficava contraída e sensível. Nunca por dependência física, mas por escavações na memória do coração banguela da moça, que começava a se lembrar do dentista bronzeado, da fome, da dor, da falta de tudo, e se insistisse em um projeto saudável de vida, adoecia-se na alma. Em todas as vezes que tentara, vidas passadas e inomináveis voltavam, jorrando, num baque surdo e violento de cachoeira. Haveria choro e cigarro trêmulo, ressentido, aliviado.

Ela sorria em meio a tudo isso, que era como um tumor que guardava daquela época, por certo incurável. E embora ela ache toda essa história uma baboseira (trivial ela realmente é), e embora nunca vá parar de tentar, como sempre persistiu e lutou para viver, ela correu e, ciente de sua total falta de dom para a literatura, escreveu: “Cada qual com seu coração”.

O Mundo É Um Moinho

Ainda é cedo, amor. O homem calhou de estar ali no momento – passou o passante a apedrejar palavras: cuidado! As estátuas também morrem… As ESTÁTUAS também morrem! Rosto roto, cínico. Mas a risada era da mais pura natureza humana. O bar ainda estava aberto. Se houvesse uma neblina ali que fosse, o Leitor suspeitaria ouvir também um blues lento, daqueles que empossam a mente, um ambiente de pouca claridade, escuridão engole mundos. O homem sentou a dor, baixou o braço e

- Me vê uma cerveja. Bohemia, se tiver.

Isso daqui não é América do Norte, porra. Ninguém sai por aí pedindo uísque no gelo. Se você quer neblina, vai catar ela lá na serra. Aqui o que dá o suspense é o calor, sufocante. O buxo baixo, com fome, o alimento sem animo de descer, o que resta é a cerveja gelada, gentil goela abaixo, Glória a dentro, graça ao pai. Tristeza não precisa de frio, não precisa de temperatura nenhuma. Ela só precisa de espaço: aqueles bem grandes, garagens vagas vazias da madruga, ou os buracos do viaduto, junto ao silêncio d’outras sombras, que procuram agasalhos não para se aquecer, mas para dar àquele cárcere em céu aberto mais aconchego. No meio de todos aqueles jornais amassados, alguém berrou, saiu de seu lugar. Olhem! Olhem todos! Era o Leitor que atravessava na esquina da outra rua, e uma a uma as sombras o seguiam com o olhar, era tão surpreendente. Tão jovem, tão besta, mal começava a conhecer a vida, não sabia das prosas e poesias que viviam marginalizadas pela catarse, ali, embaixo daquele viaduto, ao relento.

O bar fechou. Era hora da partida. Adeus, oh Esteves! Despediu-se o dono do Bar da Tarde. Esteves era o homem da tabacaria, aquele mesmo que morreria junto à estória. Ô, olho de peixe morto, aqui, ó! O Anúncio o chamava, estava naquele poste, logo ao lado do viaduto. Dizia: ganhe o mundo! Esteves riu. Há tanto tempo não trabalhava, não fazia nada. Só ainda não era um bicho, não era um Fabiano porque sabia ler. Mas ganharia o mundo do mesmo modo, sem rumo. Tirou o cigarro da algibeira e

- Ei, amigo! Você tem fogo?

Esteves foi rápido o suficiente para alcançar o Leitor, aquele com cara de amedrontado, aposto que estava perdido. Calma, não sou bandido, o personagem tentou se explicar. Mas o Leitor há enquantantos suporlia o suor do corpo, o negrume dos pulmões e as noites mal dormidas dos primeiros capítulos. Esteves carregava as farpas do passado, mas isso não dava motivo para olheituras cheias de pena e falsa compaixão. Cedeu, e lhe emprestou o isqueiro. Isso não é jeito de seguir a vida. Que saco, mais um Leitor chato e metido. Amigo, a estória já está escrita, Esteves entendia, porque não podia ele? Uma chapuletada forte talvez resolvesse, antecipou a mão à palavra e

- Preste atenção, querida!

Antes mesmo de ser o da Tabacaria, Esteves fora dono de sesmarias, sabia descer o punho como se fosse cortar a cana deixando cair pedraria. Socorro! Socourro! Ele se esperniçava espavorido, mas dificilmente sua palavra conseguiria impactar o papel co’a tinta. A tinta cairia, porém o Leitor já caíra antes, na esquina, emborrachando junto a suas sujas feridas. Para o Leitor, Esteves apenas admitia o seu não pertencimento ao novo século. Qu’era obsoleto, atravancado. Mal sabia ele que sua estória vivia graças a um leito eletrônico, repousando no monitor pulsante e multicampoplatafórmicovivaz. Oh, Esteves! O papel é agora mais ficção do que a estória. E, no entanto,

- Bom leitorzin, aqui tu num tem direito a fala. Desdenquando Leitor merece ser respeitado? Nunca vi. Se for, não é literatura, é outra coisa. É invencionamento.

Em pouco tempo, o Leitor já não seria mais o que é. De tanto punho, de tanto soco, de tanta raiva, de tanto ódio vivo na tela, a cara do Leitor ia aos poucos se deformando. Era feio. E feio tinha de ser. Esteves conseguia o que queria – se pudesse, moldaria todos os rostos para que fossem feios, só assim estariam mais atentos, não se acomodariam na beleza das paisagens. De agora, olhar calado, Esteves o ensinaria a olhar gritando. Ouvir romances realistas não bastava, limparia seus ouvidos, tiraria a cera a cabo e palavra. Ensinaria a criar o silêncio na leitura, apenas para destruí-lo. E com o pó do produto final, o êxtase. Droga? Tu me oferece drogas? Mas como é burro. Mas pelo menos já estava no final. Esteves se riu. Rosto roto, cínico. Abaixou-se perto do Leitor, ouvia a correria das folhas e

- Não se apresse. Cuidado! As estátuas também morrem… As ESTÁTUAS também morrem!

E se foi. Assim. Acabava assim? Mas onde, onde estava a lição?! Embaixo do viaduto? O Leitor entrara em pânico. Agora voltava as páginas, mas se perdia, em que rua, em que esquina ele virara? O cenário, ainda era cidade? E o tropeço: o deixara no buraco. Oh, Esteves! Mas como era grande! Grande, grande, grande era o buraco. E tão vazio. Por que o empurrara ali? E sozinho, naquele silêncio, naquela compreensão, naquele pó. Chorou. E finalmente a estória se dobrou, se rendeu: o Bar da Tarde, o viaduto, a esquina, o Anúncio no poste, tudo, tudo foi tomado por uma grande inundação. Se Esteves morreu afogado, com ou sem metafísica, não se sabe – mas se foi, assim, esperançado.

Desconversa

Oi? Escutaqui, seu soteropaulistano; seu pau-de-arara urbano, seu vatapá temakizado; seu sujo de barba feita; seu nordeste sem paulo; seu paulo severinado; seu sertanejo de buteco; seu buteco sem sertão; seu kansas atijolado; seu lugar espaçado; seu espaço sem endereço; seu vitrineiro de quatro rodas; seu engana mãe; seu irmão perdido; seu filho abandonado; seu pai ignorante; seu marido sem mulher; seu seu sem sua; seu caça raios; seu corisco artificial; seu lampião eletrônico; seu Manaus desmazonado; seu sul-uruguaiano; seu mato indeciso; seu goiano vendido; seu mineiro bandido; seu tucano-cerrado; seu berimbau terceirizado made in Taiwan; seu bossa afinado; seu Vinícius sem tom; seu Tom sem Zé; seu antropofágico comensurado; seu pão português; seu pastel chinês; seu carro japonês; seu funk de fone; seu jesus de adesivo; seu fura-filas ajuizado; seu lambe-cus revoltado; seu jovem encanecido; seu velho contemporâneo; seu cibernético supranacional; seu auditório de rede; seu facebook intelectual; seu profeta desvinculado; seu partido desideologizado; seu mal abençoado; seu fé no amor; seu deus sem amor; seu amor não existe; seu iludido não nomeado; seu cão sem dente; sua mãe contente, meu irmão ladrão: o papo é que a notícia é história e a lembrança tá quente e o livro tá escrito, mas ninguém leu e a morte já aconteceu, mas ninguém compartilhou e nós vencemos, mas fomos os únicos que curtimos, mas eu disse para e você continuou e você disse liga, mas eu não atualizei a conversa e eu to com sono e eu não fiz, mas se eu dormir, eu posso não acordar. E agora, João? Tu era fabuloso ou fabulista? O dia que eu sonhar que as palavras dão respostas a poesia acaba? Tomaranã que não, que êh êh, que acorde e o dinheiro dê e que seu vire meu, mas sem Soma, sem eurásia, lestásia, oceania, sem pastelão de família, sem formiga cumpridora, sem barata acomodada. Que seu vire meu e meu vire seu e nunca uma coisa seja por si só. Que enterrem Platão, mas deixem o platonismo. Que ergam o rio asfaltado e deixem, ali, como monumento para aquilo que passa como rio, mas já não é. Porque amanhã ainda é uma vida inteira. E meu, tô no atraso. Aloha.

Saudade

Ela estava embaixo da mesa quando Ana chegou. Silenciosa, nem a percebeu. Cansada do trabalho de abre e fecha bocas, reteve seu olhar num copo d’água gelado, esperando que esfriasse suas angústias. Ana não era só Ana; Ana carregava também Marias e Claras, Bentos e Silvas. E Chico. Chico pesava imensamente. Puxou a cadeira e a empurraram para sentar. Ana não era só Ana, mas Ana era só, e não havia ninguém para lhe avisar do perigo embaixo da mesa.

O bicho estava calmo, pouco se movimentava, mas já dava indícios co’o arfar púnico um preparo, um bote. Ana ia lentamente sendo arrastada para baixo. Marias e Claras a traziam de volta para a cuia de barro, à farinha grossa. Enquanto Bentos e Silvas botavam o chapéu na mesa, e a peixeira à algibeira. Chico não se encontrava, tinha ido buscar favo na casa de seu Miguézin. Ana amava o mel de Miguel, só um homi conseguia fazer com que brotasse tanto doce dum só lugar. Ana suspeitava que ele cozinhava a amargura da vida numa panela, deixava ela engrossar bem, jogava o mel em cima caramelizando toda a secura, fazendo com que dentro parecesse mais leve. Um sorriso espremido despontava na mesa.

O ventilador estava ligado, mas ouvia só como se fosse o calor da seca, e o mundo parado, até que chegasse uma brisa para brincar. O gado lá fora gemia breve. A farinha da estação tinha sido rala, o que produzia certo ruído quando o ar perpassava o vácuo da garganta às tripas. Parecia quase flauta. No verão tudo fica árido, menos a poesia.

Chico não aparecia nunca, e logo Maria Clara ia se perdendo junto a janela. De Bento Silva só restara o cinto de couro e a peixeira, que ficara por limpar. Ana correu os joelhos à porta e os viu assim, de relance, já tinindo no horizonte.

Cadê a foto que eles prometeram? Queria uma com todos, em frente a casa, co’os bicho todo do lado – como se sempre estivessem lá, parados, esperando sua chegada. Mas não. Não chegava foto, não chegava carta, não chegava nem beijo, nem cheiro. Só chegava vento e barulho. As hélices vivas ganharam do pensamento.

Ana era só Ana, mas vezalí e vezcá ouvia Iaiá a chamar por Ana Maria, ou Ana Clara, quando não Clara Maria. Sentia uma dó que tinha gosto de fubá, macaxeira frita e arroz com alho poró.

Com os remeleixos do pé, Ana dava forma a criatura que começava a crescer e por suas patas para de fora da mesa. Primeiro era bode, depois sabiá, Maricá, era bagre venenoso e era fome, bicho mais violento do Nordeste. Ana teve que levantar o corpo, estava quase se afogando na mesa molhada. Ana olhou para o cimo de sua casa e não sabia mais se queria que o cimo da sua vida fosse mais alto ou mais baixo. Importava a altura do teto? A gente não vê quando o vento acaba mesmo, que diferença faria.

Ana finalmente sentira o bicho que agora lhe agarrava a perna e fazia saia balançar. Que problema. E amanhã voltaria a trabalhar. Na volta, conversaria co’o sinhô Rosa, ele a ajudaria a tratar do bicho. Ana cansada, despediu-se do bicho. Bixo, bixo, bixo, fique quietinho, ela pediu. Antes de ir se deitar, deixou um vasilhame de água num lado da cozinha, assim a criatura poderia saciar um pouco da sede – afinal ela vinha dum lugar longe, onde a chuva mal se ademorava entre o oi e o tchau. Ana já conhecia o bicho de enquantantos, jamais o faria mal, mas ele tinha que ser realocado.

Ai, Ana, Ana. Se engana quem acha que Ana é só. De quando em quando, tomamos o barco do árabe arcaico para descobrir o som do eu em Ana. Se engana quem acha que Ana é só Ana. Por que Ana é Eu, e todo mundo tem um euzinho por aí que gosta de flexionar pelos pretéritos da vida. Esses que se escondem embaixo da mesa para evitar pisões e os etcéteras da língua. Mas… o senhor Rosa sabe, né? Viver é etcétera.

Ana só Ana
Eu só eu
Eu só Ana
Mas Ana não é só Ana
Ana é só eu
E se sou mais só que Ana
Eu sou só eu
Sou só
E Só
É só saudade

Shanghai, Uma Fotojornada

Demorei muito tempo para rever essas fotos e finalmente ter a paciência para selecionar as 50 melhores, em seu grau de importância. Duas mil ou mais fotos, e me auto incumbi de escolher as que eu achava que me diziam algo. Bom, hoje a China parece pipocar constantemente em nossos ouvidos: nova potência econômica, hipernacionalismo, superpopulação com competição mais extrema do que animal planet, servidão passiva, culinária quase viva, transporte público incrível (nas capitais), capitalismo disfarçado e etc. É possível encontrar tudo isso refletido em Shanghai, uma de suas maiores cidades. De cara, Shanghai lembra muito as grandes capitais econômicas do mundo como São Paulo e Nova York: grandes edifícios, centros culturais incríveis, saturação de informação nas ruas, as luzes, o intenso movimento, sensação de sufocamento nos maiores pontos de comércio, a tentativa de mascarar a miséria e uma grande salada cultural. A diferença é que a salada chinesa carrega uma pitada a mais de tempero asiático, pois tirando os olinhos puxados, hoje, já são tão ocidentais quanto nós. Enfim, essa é uma amostra de um pequeno passeio em Shanghai, uma cidade encantadora que vive de um eterno balanceamento entre o passado, presente e futuro. Seja pelas tampas de bueiro únicas, cada uma estilizada com um traço e carácter diferente, suas ruelas transformadas em vilas ou as próprias pessoas, cada qual querendo se afirmar, buscando um espaço para dizer Sim, eu existo. E estou aqui, a cidade impressiona nos detalhes. 

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Jing’an Temple

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Shanghai Museum

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(Isso não é um shopping, é parte de dentro do Shanghai Museum)

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(homem dormindo na porta da frente do Shanghai Museum, uns cinco minutos depois, seguranças apareceram e chutaram ele para longe)

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Passarela decorativa do metro

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Membros do partido fazendo coleta de lixo (pelo menos parecia)

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Banheiro público

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Espetáculo com macacos na rua

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banheiro feminino no metro

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banheiro em um hotel de luxo

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Todos os taxis em Shanghai possuem uma cabine de isolamento para o taxista, pessoa que mal fala com os passageiros, sério mesmo.

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Feira de… Arranjar Casamento?

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Entrada de um dos metros

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Homem na escadaria do metro

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Shanghai Propaganda Poster Art Center, um lugar difícil de se encontrar perguntando na rua

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Não sei como anda o tribunal de ditados, os que são aceitos ou negados, mas queria aqui lançar dois novos: Por trás de cada foto digital, há outras 20 que saíram péssimas; E em terras estrangeiras, um sorriso vale mais do que um pato à Pequim. (vale muito mais até)

Nota para todos aqueles que pensam em viajar, mas ficam receosos do tempo que perderão com trabalho/aulas: Viaje. O seu tempo de vida apenas irá expandir.