Nobody cares for translations

Ma Mignonne

Let them hundred flowers bloom

I hope they unveil

A little part of you

I cannot translate

The love one has felt

When it’s too late

Too soon to say

I see you

I see you sitting there

With your legs crossed

Paying attention to the robotniks of life

To the hardened kindred spirits

Stone fleeted

Labyrinth minded

Dream faded highlands of time

I see you

See you there

With your

Oh so so pretty hair

Bobbing while you nipper at the tips of my stare

You see a poem

I see a painting

Resting there

Do I?

See you

See you but do not dare

Forward share what it is a reflection

Bemused consternate compassion of inward fear

And if everything is a mystery

And the eye is the great tricker hat

Which lies on top of its lap

When we die?

Will I

See you

See you there

For my sweetest Damoyselle

With all our finest get well and farewell wishes

Clément

Douglas

Douglas’s Mom

And the other one hundred flowers

CHINA’S ANCIENT WORK DATABASE

(mais um da série de textos surgidos a partir de músicas, a da vez foi essa, feito pare ser lido junto / made to be read with)

Deep in the meadow
Where justice has no face
A group of women gather
They cleanse souls by their waist
Soaking clothes and feelings within the river’s wake
Do they slave, the wind whispers and goes away

Such sheepishly synchronism satisfy
The rattle of the bones
Come sounds of tweaking twigs and twines inside
For a second the figure of a boy appears
Summed or summoned by
The world destroyed
The ball in his arms is now rolling hard
He holds the world’s heart in his mouth
Such a threat, it can fall any minute now
He holds the river’s gaze with his feet
Such a sprout, a runner, no trying to keep the eye’s wit.

And the river smiles and obeys
When the boy says
It is time to stop and flow the other way
The women harness silence
They still play a role
But whether to keep or not cleaning their clothes
They do not know
The ball falls in and floats in reverse
I hear them birds are singing
Sending chills on them dusty bones
Awake thy women!, hear the laughter
Of the sun, preoccupy thyselves only
With what thy hath to learn from yer sons

The boy gets the ball without
Laying one finger in the river’s fur and fleas
Way into the meadow
Catching on with the last of summer’s breeze

The women say goodbye whilst forgetting the land’s deeds and pleas and prides
Whimsical truth and lies
You never know which tide the river sides

China meets and strives
With the remainders of the world’s ancient work database
Will the future bring us new songs?
With the burrming of erhu, pipa, guzheng and dizi flutes?
Will history be brought back to life in the hallelujah mountain’s sight?
The world whirls, cries and chimes
It does not want to sing songs
Of craft and love
Starve no more
Thus it is time to be put to bed
And China is kept where it rests
Deep in the meadow
Tangled up in the web
Cradled and broken by theirown’s and some USA global nest.

The women say goodbye whilst knowing time has not yet come
In truth, the child is still in the belly
Harvesting strength, fighting demise
Awaiting the birth of a-new stallion
Running a-far and wise
A-free from one thousand and three hundred and fifty-seven billion sappy tearful lines.

I hear them birds are singing
Do they suffer while they sing?
Hence their loveliness begetters time and reason and
Men likewise?
I do not know
My dress
My soul
Everything is soaked
I put them up to dry
Together with the women’s right and fairness for life.
May it dry
May future be warm and bright.

As we walk out one evening
Where desire does not meet salvation
And the river awaits for its salute
I lay with the boy
Alas
At least we are both blessed
Filled with joy.

The Following is A Goodbye

To Herbert Alves

You did made me grow
But now it is over, time for me to go

I left your importance behind
If you want it back,
Feel free to go ahead and try to find

I left it under my doormate
Though I don’t really remember why
It surely wasn’t for the satisfaction of stepping upon it
Everytime

It had something to do with keys
And locks
And clocks
And times

But, oh!
Just forget it.

Now
I left it all behind
My cheeses
My cats
And my morning velvet hats
The things I dearly collect

Now
It is time for day to go on by
This is my absurd
My creation
My goodbye

You will be harmed –
Maybe destroyed
But you’ll learn how to master life
And live
And fly
And be the greatest in your meandering tides

But this time
Less alive.

Verdade

Quero te contar um negócio, só cá, entre nós, que eu sei que vi! Certeza. Mas… Nossa!

Ele a segurava como se fosse coisa, como se fosse mastro que desse a guia exata para todos os rumos: asfalto, mar e planos altos. Como se fosse mastro que nem se preocupava com o leme, com vela e com casco. Ele a abrilhantava mais do que graxa de sapato, dizia ser de dourado suas cores e a erguia sobre cabeça como se troféu fosse.

E eu, desatinado, me retia a estibordo muitíssimo enjoado em ter de estar em sua companhia nessa viagem transatlântica. As ondas subiam e desciam e eu mais louco ficava, louco endoidava, e pensava: e se eu roubar a coisa? E se eu sumir com ela? Poderia assim dar posse dela aos porcos – que não sabendo do que se tratava, a engoliriam, e o problema estaria resolvido por algum tempo. Porém, na maré mais cheia, quando a lua está mais desapaixonada, o refluxo surgiria, o mal estar tomaria parte da jogatina suja. Engolir coisas sem saber o quê de sua coisura nunca é bom, diria o médico. Porcos, honestos que são, me devolveriam a coisa… E o que fazer dela?

Meu olho pestanejava, o Sol se escovava entre as nuvens e pouco a pouco seu brilho ia aumentado. O primeiro contato com o calor é sempre bom: ele começa por alterar seu estado molecular, sem contanto que sua fase mude num súbito. Se ao menos eu pudesse matar… Matar também não era uma boa opção. A justificativa do homicídio daria razão e causa à coisa – mal inicial que afetou os porcos.

Enquanto eu esperava, debruçado ao apoio do navio, esperando que os raios solares penetrassem assim, também devagar, pelos meus poros e ajudassem a clarificar a minha mente tão perturbada, um aglomerado de 3 pessoas se juntava agora para olhar debaixo da escotilha a coisa que o moço erguia, que agora tinha voz própria e se auto enunciava dourada. Que absurdo! Que grau complicadíssimo de metamorfose que nunca jamais transpassaria pelos meus pensamentos doentios. Era penoso ver e ouvir uma coisa que não existia ganhar voz própria e começar a caminhar com pernas peludas pelo convés.

Eu temia – temia mais do que a morte, ver com meus próprios olhos aquela coisa que uma vez fora só vento de pensamento humano, se meter numa vasilha extremamente compacta e lacrada de carne e osso. Eu temia por demais. Quem sabe, se fosse alto e belo, timbrasse palavras c’uma afinação de tenor, possuísse olhos castanhos miúdos e puxados, pele morena d’ouro bronzeada, eu também, um ser que se acreditava a salvo de vícios e asneiras, me apaixonasse (afinal, essas eram as características físicas que sempre me atraíram aos rapazes). Daí a paixão prosseguiria de tal modo: primeiro eu elogiaria a beleza de sua aparência, contudo, ressaltando que o seu conteúdo tinha a mais alta e nobre qualidade. Segundo, eu lhe levaria flores e pediria que me acompanhasse por um passeio pelo deck, convidá-lo-ia para dançar, tomaríamos champagne e eu embriagado de todas as formas possíveis, confessaria meu amor do mais puro e honesto desjeito de parolar – afirmando que eu já não poderia mais viver sem aquela presença, sem aquele sentido de vida. Terceiro, antes de ele me responder de volta se correspondia aos meus sentimentos, se me amava como filho, ou se me dizia que era bom sermos só amigos, eu lhe diria: não importa! Não importa… Por favor coisa (pois até agora eu tinha medo também de perguntar seu verdadeiro nome. Ora! poderia ser qualquer coisa, não é mesmo? Temia ser algum daqueles nomes com ismos no final), -repetindo- Por favor, coisa! não me abnegue d’um sentimento, quero amá-lo como agora para sempre, pois amar me faz grande e me sinto crescer. Achei minha vontade de viver em toda sua coisisse! Quarto, nós finalmente nos aproximaríamos como seres sociais, trocaríamos as fábulas de nossas vidas, nossos sonhos e anseios mais próximos ao coração, faríamos promessas de apresentar cada outro a sua nova família. Mas daí… Daí ele me diria que era filho da melhor mãe do mundo. Ele era filho da Verdade, mas como ser sujeito extremamente humilde que era, não se permitiria dizer “filinho de Verdade, verdadeiro é”. Bom, não ainda, pelo menos. Quinto, e eu esperaria por esta última confissão, até minha morte. Sexto, eu morreria feliz acariciando suas pernocas peludas, mas sem nunca de fato saber se a coisa era ou não aquilo que ela dizia ser.

Por final, vomitei todos aqueles pensamentos asquerosos no oceano. Os delírios fluíram de minha boca e foram colorir a água, que se encontrava assim meio sem graça, de ressaca. Pedi desculpa aos peixes por infectar sua casa e me retirei do espaço. Depois de tanto relutar, finalmente cedi aos meus conselhos médicos e tomei aquela pílula que era anti-enjoo e anti-mais três outras coisas das quais eu não me lembrava.

Relutante, segui meus pensamentos e minha esguia perna – a da esquerda, porque nunca se pode acreditar muito na Direita… a Direita é sempre metida a esperta – até a escotilha fedorenta, adornada por ¾ de passageiros (agora um menininho de 60cm tinha se enfurnava debaixo de uma mulher, analisava seu ventre para ver se reconhecia-o como de sua mãe). A coisa estava fazendo um furor! Seu original interpretante, criador mor ou talvez apenas ejaculante não sabia mais o que fazer com ela: tinha soltado o bicho mais barbudo e cabeludo no mundo! Não tinha mais controle sobre seus pelos, tentava fugazmente aparar com uma navalha suas monocelhas, mas ele se esquiva, zunia, caiporava que nem Êre de Ocaíta.

O medo já não era mais só meu, e as pessoas se apressavam em fechar a escotilha – a coisa vinha vindo! Tinha uma aparência de feltro podre e caminhava aos solavancos disparatando pelinhos pubianos por tudo que é canto! Enquanto todos se refugiavam, a espera que a coisa passasse, fosse embora e apenas deixasse o rastro de História, o menininho do ¾ saiu pela porta se meteu a bedelhar com a fuça daquela coisa. O menininho deu uma boa olhada pra cara do coisa, e largou risada que só menino de moral magra sabia dar. A inocência crua e cruel das crianças, como matava, como salvava.

– Nossa, feio que nem peste! Sujo que nem imundo! A mãe deve ter posto quatro dentes pra fora depois de tentar beijar esse cú!

Que horror! Um menino de 60 cm que já tinha cú na boca! Aparentemente a coisa pensou a mesma coisa, pois mesmo, se arrefeceu, mostrou-se assim acanhada, sem jeito de responder assim ao menino que ria em larga escalada, píncaros de geada, nevada solene, baita de friaca que gerou em sua pose e autoestima. O alívio me veio com as palavras que eu queria ouvir. Veja bem, eu não sei mesmo se a coisa era bonita ou não, as vezes demoro para achar o carvão, abrir a porta pesada do forno e por combustão incendiar aquela calha na roda chamada opinião, comboio de corda afiada pronto para estrangular. Sorte era a minha, de ter ali um menininho de trêzquartos, cheio de ódio no coração e me dizer que aquilo não era bonito não! Por favor né, ser bichado por criança é negação máxima à possibilidade de ser amado. A coisa se encolheu, foi pro canto do balde e da esponja, se fazendo de vítima, fingindo doer a dor mesmo que doía.

Fim do teatro, a cortina desceu e os adornos saíram de trás da porta. Todo mundo foi lá em cima, tirar satisfação com o cara que tinha pensado aquela coisa. Deram uma boa d’uma pitombada na cara dele. Cheguei a ouvir algo como Ai iai iai! Não faz mais isso! da moça do ventre errado. O final do meu dia foi na cozinha, repondo aquilo que eu tinha deixado pros peixes.

Só depois de muito tempo, passado o rio Ganges, acabado a viagem, chegado em casa, é que fui perceber que eu tinha no bolso uma dessas coisas. Côisa, sabe? Coisa mesmo. Dessas que a gente acha que cria e descobre sozinha e tem vontade de mostrar pra quem tá perto? Foi surpreendente! Foi assim: Ham? então eu tenho uma coisa, coisa só minha? Uma coisa feito coisa mesmo, que eu acreditava que via, que brotava do suor do furo do meu bolso. Eita. Curioso. Eu via que ela também era peludinha, mas era assim, menor que um troféu, do tamanho de uma bolinha de gude. Coisa meiga, coisa fofa, coisa minha.

Metade eu engoli pra ver se digeria, a outra metade eu joguei no lixo e segui a vida.

No final do texto eu dei graças a Deus por me olhar no espelho e ver que apesar de eu usar todas essas flexões de gênero masculino eu ainda era mulher, e confiante, e alegre, e redondamente duvidosa sobre tudo.

ps: ainda dou graças à alguém porque não gosto de deixar palavras sozinhas, e Deus é um nome bunitinho, id est, cosmética ex cosmetikés.

ps2: eu esqueci o que queria te contar… Sabe, lá no começo do texto? Quando eu começo dizendo que quero contar um negócio? “Quero te contar um negócio: socar entre nós…” Mas daí aparece essa coisa e atrapalha tudo? Pois é, esqueci. Bom, devia ser coisa mentirosa então, tipo lorota bem cabeluda, sabe? Porque se é verdade, ela vive e a gente não esquece, não é mesmo? A Léti sabe.

Tardes Triviais

Um dia ela escutou que a solidão era só mais um carinho malvado do grande amor, tudo já elaborado pra gente sentir saudade. E sentiu vontade de chover e de contornar as traças e desentupir as calhas do peito, da casa, do pulmão, com todo aquele amor que tinha e cair no jardim, ir descendo fundo no solo úmido até que os girassóis, que ela cuidava todo santo dia, sentissem um pouco de saudade. Sentir a terra como parte de seu próprio corpo como sentia quando era uma menina branca, pobre e com o cabelo fora de moda. As modas que escutava do pai preenchendo-a de esperança e de desejo; daquelas cordas de violão suadas, surradas, atrasadas, ela se sentia dona dos segredos do horizonte. A iluminação tão parca criava um espectro bonito de estrelas cheias de mistérios e maldições, a mãe ríspida dizendo que não deviam olhar, que não deviam apontar, mas ora essas meninas! E ela que tola não era, olhava tudo ao redor e tudo sentia. Talvez fosse a puberdade chegando, talvez fosse porque olhava demais as estrelas e tivesse sido amaldiçoada, ou quiçá um possível castigo divino por desafinar não só uma vez as cordas do pai, mas ela crescia em suspiros.

Suspirava, e a dor que sentia era a dor dos conscientes da desgraça. Frequentava uma escola barulhenta, engolia uma sopa salobra e então começava a lavar as roupas de D. Maria e, deus me livre se chover. Era ela quem cuidava das irmãs pequenas e ignorantes; quem contava com a ausência do pai, devoto de baralhos e bebidas; e era ela quem devia lidar com o desencanto mórbido da mãe distante, enfiada numa cidade grande a cuidar do filho doente. Ainda que esquecida em um bairro esquecido de terras distantes ao norte, ela imperava entre os seus com a firmeza e doçura de meninas que se desvendam e crescem só. Tocava sorrisos, cortava cabelos, dava sermões e tirava piolhos de quem precisasse ali.

Um dia desejou morrer, e era só uma dor dente. Mas só quem já teve dor de dente como as dores de antigamente sabe o que é sentir-se um grande coração latejante, com a sístole bem no meio da gengiva, o átrio-ventricular desesperado, toda aquela dor sanguínea se espalhando pelo pescoço, pelos braços, mais a febre, mais o frio.  Foi nessa época que ela quis escrever “Ser coração dói, de todas as formas possíveis”, mas a agonia era grande e ela não alcançou o caderno de acordes a tempo: esqueceu-se. O pai não sabia o que fazer quando ouviu, no murmurante posto de saúde, que o único dentista da cidade foi de férias. A pequena transformava-se, aos poucos, em um coração puído e amarelo, dolorosamente palpitante. Podia-se ter passado dias ou meses até que apeasse, bronzeado, o dentista, dizendo: “danou-se, só resta rancar”.

Como aquelas piores dores, as dores mais necessárias para que permaneçamos vivos, soaram as palavras daquele ser vestido de branco. E eram como agulhas lá atrás na gengiva.

Ela voltou pra casa e já não se sentia mais a menina de antes, menos por não ter a metade dos dentes de outrora do que por continuar acompanhada da dor ou da lembrança da dor. O pai, italiano e desesperado por natureza, fez o que aprendeu com os índios que da região e deu-lhe fumo em papel para, dizia, apaziguar as perturbações do corpo e da alma.

E hoje ela sente que a partir daqueles dias começou a crescer, principalmente ao perceber que era preciso se portar com fugazes ímpetos de vida em cada circunstância. Assim terminou a escola, a graduação, a pós-graduação, e começou a trabalhar. E tudo isso, banguela. Banguela na alma, lá atrás. Banguela como vinha sendo desde aqueles dias, dos quais o fumo se espalhou pelo resto deles.

Não se lembra exatamente quando, mas trabalhou duro e parou de ser banguela; casou-se com um pedreiro-guarda-estudante-babá dos irmãos como ela uma vez fora, e estava certa da combinação precisa do gênio ambicioso e amalucado dos dois.

Naquele fim de tarde de maio, a mulher que ela se tornou parou para pensar que ela era chuva e que era terra de girassóis. Estava na puberdade de novo, a sentir tudo ao seu redor. Era assim que sempre acontecia quando tentava parar de fumar. Ficava contraída e sensível. Nunca por dependência física, mas por escavações na memória do coração banguela da moça, que começava a se lembrar do dentista bronzeado, da fome, da dor, da falta de tudo, e se insistisse em um projeto saudável de vida, adoecia-se na alma. Em todas as vezes que tentara, vidas passadas e inomináveis voltavam, jorrando, num baque surdo e violento de cachoeira. Haveria choro e cigarro trêmulo, ressentido, aliviado.

Ela sorria em meio a tudo isso, que era como um tumor que guardava daquela época, por certo incurável. E embora ela ache toda essa história uma baboseira (trivial ela realmente é), e embora nunca vá parar de tentar, como sempre persistiu e lutou para viver, ela correu e, ciente de sua total falta de dom para a literatura, escreveu: “Cada qual com seu coração”.

O Mundo É Um Moinho

Ainda é cedo, amor. O homem calhou de estar ali no momento – passou o passante a apedrejar palavras: cuidado! As estátuas também morrem… As ESTÁTUAS também morrem! Rosto roto, cínico. Mas a risada era da mais pura natureza humana. O bar ainda estava aberto. Se houvesse uma neblina ali que fosse, o Leitor suspeitaria ouvir também um blues lento, daqueles que empossam a mente, um ambiente de pouca claridade, escuridão engole mundos. O homem sentou a dor, baixou o braço e

– Me vê uma cerveja. Bohemia, se tiver.

Isso daqui não é América do Norte, porra. Ninguém sai por aí pedindo uísque no gelo. Se você quer neblina, vai catar ela lá na serra. Aqui o que dá o suspense é o calor, sufocante. O buxo baixo, com fome, o alimento sem animo de descer, o que resta é a cerveja gelada, gentil goela abaixo, Glória a dentro, graça ao pai. Tristeza não precisa de frio, não precisa de temperatura nenhuma. Ela só precisa de espaço: aqueles bem grandes, garagens vagas vazias da madruga, ou os buracos do viaduto, junto ao silêncio d’outras sombras, que procuram agasalhos não para se aquecer, mas para dar àquele cárcere em céu aberto mais aconchego. No meio de todos aqueles jornais amassados, alguém berrou, saiu de seu lugar. Olhem! Olhem todos! Era o Leitor que atravessava na esquina da outra rua, e uma a uma as sombras o seguiam com o olhar, era tão surpreendente. Tão jovem, tão besta, mal começava a conhecer a vida, não sabia das prosas e poesias que viviam marginalizadas pela catarse, ali, embaixo daquele viaduto, ao relento.

O bar fechou. Era hora da partida. Adeus, oh Esteves! Despediu-se o dono do Bar da Tarde. Esteves era o homem da tabacaria, aquele mesmo que morreria junto à estória. Ô, olho de peixe morto, aqui, ó! O Anúncio o chamava, estava naquele poste, logo ao lado do viaduto. Dizia: ganhe o mundo! Esteves riu. Há tanto tempo não trabalhava, não fazia nada. Só ainda não era um bicho, não era um Fabiano porque sabia ler. Mas ganharia o mundo do mesmo modo, sem rumo. Tirou o cigarro da algibeira e

– Ei, amigo! Você tem fogo?

Esteves foi rápido o suficiente para alcançar o Leitor, aquele com cara de amedrontado, aposto que estava perdido. Calma, não sou bandido, o personagem tentou se explicar. Mas o Leitor há enquantantos suporlia o suor do corpo, o negrume dos pulmões e as noites mal dormidas dos primeiros capítulos. Esteves carregava as farpas do passado, mas isso não dava motivo para olheituras cheias de pena e falsa compaixão. Cedeu, e lhe emprestou o isqueiro. Isso não é jeito de seguir a vida. Que saco, mais um Leitor chato e metido. Amigo, a estória já está escrita, Esteves entendia, porque não podia ele? Uma chapuletada forte talvez resolvesse, antecipou a mão à palavra e

– Preste atenção, querida!

Antes mesmo de ser o da Tabacaria, Esteves fora dono de sesmarias, sabia descer o punho como se fosse cortar a cana deixando cair pedraria. Socorro! Socourro! Ele se esperniçava espavorido, mas dificilmente sua palavra conseguiria impactar o papel co’a tinta. A tinta cairia, porém o Leitor já caíra antes, na esquina, emborrachando junto a suas sujas feridas. Para o Leitor, Esteves apenas admitia o seu não pertencimento ao novo século. Qu’era obsoleto, atravancado. Mal sabia ele que sua estória vivia graças a um leito eletrônico, repousando no monitor pulsante e multicampoplatafórmicovivaz. Oh, Esteves! O papel é agora mais ficção do que a estória. E, no entanto,

– Bom leitorzin, aqui tu num tem direito a fala. Desdenquando Leitor merece ser respeitado? Nunca vi. Se for, não é literatura, é outra coisa. É invencionamento.

Em pouco tempo, o Leitor já não seria mais o que é. De tanto punho, de tanto soco, de tanta raiva, de tanto ódio vivo na tela, a cara do Leitor ia aos poucos se deformando. Era feio. E feio tinha de ser. Esteves conseguia o que queria – se pudesse, moldaria todos os rostos para que fossem feios, só assim estariam mais atentos, não se acomodariam na beleza das paisagens. De agora, olhar calado, Esteves o ensinaria a olhar gritando. Ouvir romances realistas não bastava, limparia seus ouvidos, tiraria a cera a cabo e palavra. Ensinaria a criar o silêncio na leitura, apenas para destruí-lo. E com o pó do produto final, o êxtase. Droga? Tu me oferece drogas? Mas como é burro. Mas pelo menos já estava no final. Esteves se riu. Rosto roto, cínico. Abaixou-se perto do Leitor, ouvia a correria das folhas e

– Não se apresse. Cuidado! As estátuas também morrem… As ESTÁTUAS também morrem!

E se foi. Assim. Acabava assim? Mas onde, onde estava a lição?! Embaixo do viaduto? O Leitor entrara em pânico. Agora voltava as páginas, mas se perdia, em que rua, em que esquina ele virara? O cenário, ainda era cidade? E o tropeço: o deixara no buraco. Oh, Esteves! Mas como era grande! Grande, grande, grande era o buraco. E tão vazio. Por que o empurrara ali? E sozinho, naquele silêncio, naquela compreensão, naquele pó. Chorou. E finalmente a estória se dobrou, se rendeu: o Bar da Tarde, o viaduto, a esquina, o Anúncio no poste, tudo, tudo foi tomado por uma grande inundação. Se Esteves morreu afogado, com ou sem metafísica, não se sabe – mas se foi, assim, esperançado.