Pererê caixa de fósforo

Quando a hora for certa, você saberá que já tem muito janeiro.  Eu não me ligo muito em janeiro. Mas agosto é quente em alguns nortes e as coisas que têm que acontecer, acontecem. A menina que fala bruto e tem sorriso derretido diria que essa minha resenha já ta muito ré. Ela disse assim mesmo, que ta ré. Mas veja bem? Um dia eu aprendi que a verdade das coisas é não esquecer e, então, comecei a olhar muito as pessoas nos olhos. Isso é coisa de grego. Mas gregos só ajudam a fazer tese, pois sempre se esquecem dos cantos das musas e criam pandoras pra agradar. Qual foi a última vez que você olhou dentro dos olhos de uma pessoa? Pra mim os astros estão sempre retrógrados. Minha mãe diria que ela é de Áries e que não se afeta com isso, e pererê caixa de fósforo (lê-se etcetera). A vida da minha memória existe há quatro ou cinco anos. O resto é como encontrar instantes numa pilha de folhas secas ou diferenciar os tipos de árvores do cerrado. A não ser que seja pé de manga, que é um pé formoso. Aqui as mangas são também formosas e lambuzam minha boca como um seio feminino. A memória é o caminho cheio de vida que o poeta toma pra desemborcar na morte. Quando forem muitos janeiros, eu vou me esticar ou me encolher? Não sei, eu gosto de coisa que enruga: ruga, cabelos, suas palavras duras. E quando forem muitos agostos, será que eu vou perceber?

A Pregação das Ondas do Mar

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar

Quando o relógio bater as horas vazias, pegue sua natureza vagabunda e se desfaça dela. O ninho, estranho no berço, mais estranho será no recomeço. Cative os outros com a mesma efemeridade dos significados das palavras: cada dia é um amor diferente. Dobre e torça suas expressões, até que elas caibam numa sentença que fuja a morte. Repita, repita, repita o que for de bom gosto. Ouça a corneta dos anjos que não toca para ninguém, a não ser você. Repita, repita, repita tudo aquilo que sua mãe Sofia lhe disse para fazer, nunca faça. O saber te engana. Sobe na sua cama, a consciência reclama, ela não precisa acordar. Uma vida dormida também é vida, e quem sabe mais vivida na cama. Ama a teus lençóis com o mesmo amor a pele e a luz que da cortina espia. Tenha em mente o grau das almas que jamais poderá medir, treina fingir, treinar pregar sua presença. Dialogue com as cadeiras, elas sempre estarão sentadas para te ouvir. Dê bom dia as flores, quanto mais venenosas, mais solitárias elas são. Ama a tua própria solidão, quando te esqueceres dela, não serás mais livre, há sempre uma sombra amarrada em teu pé. Tu carrega uma sombra, assim como a pedra também carrega a dela, mas apenas tu conhece o peso da tua. Tu achas que conhece. Já que as outras sombras lhe são tão estranhas, tão tolas e levianas, vivem numa leveza.

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar.

Toma o chá de manhã, se precipite na embocadura da espuma, deixe ferver a boca e agradeça ao arroubo de calor de toda manhã. Olha pro Sol e sente pena, ele é um coitado, toda manhã também é roubado. A vida é a maior ladra de todas, tira de alguns para dar aos outros. Tu também é ladrão, ninguém vem ao mundo santo. Jesus era um pobre coitado, achou que te livraria do pecado, mal sabes que tu nasceu sentado chorando querendo voltar pro antro. Todo berço é estranho. Não tenha duvidas! A dúvida é o maior erro necessário regularmente cometido. Saiba disso. Quando souberes, sentirá se livre para rir da seriedade das camélias – que séria não nasceu, foi trabalhada pelas mãos dos homens. Quando souberes, lembrará de tua mãe – que séria não nasceu, foi deformada pela força do tempo. Quando souberes, será superior aos seus pés atrofiados, velhos, limitados – tu dançaras em todo lugar, até onde não foi feito para dançar. Toda manhã tu acordarás tonto, de tanto giros que deste ontem, e de novo, o berço lhe parecerá estranhamente familiar. Tu tomarás o chá, e sem ter que pedir, a música começa a tocar.

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar.

Ele colocou a sela no cavalo de sapatos abotinados. Esse é um escravo, ele disse. Mas olha com teus ouvidos como pulsa perfeito o compasso. Ele dança sem nunca ter pensado a vida. É uma peça, o ator, o artista que jamais veio a saber o que é o palco. Vê? É a mesma jaula, e ele nos ilude tão perfeitamente. Corre, marcha, pula, come, voa encantadoramente. Esse ator, esse cavalo, que nome posso dá-lo senão Liberdade? Vem, me ajuda a limpar suas cristas que elas andam tão sujas e feias. Sabe, vou ter que vendê-lo um dia, é assim que te sustento, é assim que continua a fazenda. Preciso que ele esteja bonito. Quanto mais alto a beleza, maior o preço da venda. Eu sei, tu ficas triste, mas eu me contento. Olha para o lado, aquele corcel negro que vem lhe afagar – velho, pobre e doente, com esse tu sempre poderá ficar. Tem uma ferida no casco, não me presta o trabalho, mas olha como é amigo e bonito, ele te ensinará a dançar. Carregue o Sonho para longe, vá brincar, quando for a hora eu venho te buscar para o almoço. O corso do cavalo junto ao seu osso, atrás das figueiras, quem dirá que são duas coisas? Viva quantas realidades tiver que viver. Mas quando a hora chegar, eu te chamo pra jantar. Vou por tua mãe num prato de ceviche, vê se come com gosto.

Quando a aula for paga, vem pros meus braços descansar.

Um dia você tem que aprender uma coisa. Eu devia ter te falado que a tua mãe não é a tua mãe. A tua mãe é o mar. Tu vê aquelas costas? Gozadas? Tu vai chamar de Maceió. E ali, aquelas bundas, cheias de suntuosidades? Lá é onde todas as mãos gostam de passar, e a cada toque que lhe prestam nasce um morro novo, e cada morro um relevo, que nem o morro mais se conhece. Eu chamo aquela terra Pai, pois foi ali que colocaram o filho, e do lado o Espírito Santo. Se ainda tem algo de sagrado ali eu não sei – do que já foi profanada aquela terra, todo dia é uma foda nova. Doí, mas ela parece que gosta. E ninguém deveria mexer com o gosto do Pai. Às vezes eu tenho raiva do Pai, e queria me mudar. Me sinto abandonado, desprotegido. Aprendi que o Pai era o medo e a bondade. É por isso que eu digo, o meu berço foi um tanto estranho. Pai que era bunda que era mãe. E as costas ali, sempre sofrendo? É difícil perceber o corpo inteiro, e quando sinto que é tudo uma coisa só, meu cérebro começa a dar defeito. Tenho que recomeçar. Repito, repito, repito: o sonho me ensinou a dançar.

Todo dia é Dois de Fevereiro

Chegou, chegou, chegou. Afinal o dia dela chegou. Vou me embora daqui, não antes de me despedir. Quanto nome tem a rainha do mar? Quanto nome tem a rainha do mar? Mamãe, eu vou me embora, não antes sem chorar. Deixo a calma molhar a ponta dos meus pés, sentir a paciência da areia do mar. Sei que desse meio devo me separar. Aprendi a dançar, agora vou aprender a ser onda do mar. As ondas se propagam silenciosamente, com graça e ligeireza, porque nada as detém nem elas são prisioneiras da nostalgia. Uma sequência de intervalos e te dou a música. Uma sequência de separações e te dou a vida. Seguindo a imagem dessas ondas sucessivas. Hoje eu esqueço que tenho duas mãos. Para que ter duas mãos? Eu tinha duas mãos e nada mais. Aprendi a dançar, pegar essa coisa chamada memória e sem meiguices a magoar. Tudo vai se repetir e nada nunca será o mesmo, agora eu, onda do mar. Quando o relógio bater as horas vadias, toda natureza vagabunda vai ser onda e se quebrar.

Canto para Iemanjá

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar
Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar
Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar
Quando a aula for paga, vem pros meus braços descansar
Todo dia é Dois de Fevereiro

Dez poemas rasos e desconjuntados sobre A Incerteza

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I. A incerteza é uma figura de uma perna só
O balanço dos galhos se atrapalha
corre cansa em apanhar
O rabo desenha figuras
Geométricas indispostas
Deixa um rastro de resposta
E morre perdido
Na sua casa labirinto
Aminotauroacidou-se

II. A incerteza
não se satisfazendo
inventa outra língua
Cismando que nessa
Será mais direita

III. A incerteza
alvo furado
labirinto quadri universal
galinha que voa
cabeça dentro da boca
refúgio sombrio
receita intelectual kandiskiana
suplemento prometeico

Tudo tudo metáfora barata
Começar de novo?

IV. E se eu for um ovíparo que mama?
Ornitorrinco
E se eu for um vivíparo co’escamas?
Tubarão-lhama
E se eu não for nenhum dos dois
Há incerteza

A certeza é muita mutreta
Pruma certidão só

V. A incerteza,
Tereza
Não é uma nega
É você ser flafla
E não ganhar nada nada

VI. A incerteza é um chien andalou chinês
Filha do burrinho pedrês

VII. A incerteza
É tão cheia
De si
Que é tão cheia
De nada
A certeza pelo menos tem fé
Mas que também não anda com a cotação alta

VIII. A incerteza
Se trepasse
Ia ser um gozo tão cheio de dor
Mas já sendo
Porque não sabendo
Arrependimento

IX. A incerteza
É fonte que bebe e não sacia
Ainda bem.

X. A incerteza
Tenho certeza que se eu monetizar
Fico rico
Mas um belo dia
Andando na rua
Cheio dos despropósitos
Um caminhão passou dentro do meu corpo
E me descobri poeta
Daí dava de graça
As incompletudes
Mas ninguém queria
Então fui fazer engenharia
E ser mais um, ganhar a vida
Mas a faculdade era pública
E entrou em greve

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(rabiscos do meu caderno mal photoshopados, tirados com foto de celular. nunca tinha feito isso, mas desenhar antes de escrever foi bom)

Nobody cares for translations

Ma Mignonne

Let them hundred flowers bloom

I hope they unveil

A little part of you

I cannot translate

The love one has felt

When it’s too late

Too soon to say

I see you

I see you sitting there

With your legs crossed

Paying attention to the robotniks of life

To the hardened kindred spirits

Stone fleeted

Labyrinth minded

Dream faded highlands of time

I see you

See you there

With your

Oh so so pretty hair

Bobbing while you nipper at the tips of my stare

You see a poem

I see a painting

Resting there

Do I?

See you

See you but do not dare

Forward share what it is a reflection

Bemused consternate compassion of inward fear

And if everything is a mystery

And the eye is the great tricker hat

Which lies on top of its lap

When we die?

Will I

See you

See you there

For my sweetest Damoyselle

With all our finest get well and farewell wishes

Clément

Douglas

Douglas’s Mom

And the other one hundred flowers

CHINA’S ANCIENT WORK DATABASE

(mais um da série de textos surgidos a partir de músicas, a da vez foi essa, feito pare ser lido junto / made to be read with)

Deep in the meadow
Where justice has no face
A group of women gather
They cleanse souls by their waist
Soaking clothes and feelings within the river’s wake
Do they slave, the wind whispers and goes away

Such sheepishly synchronism satisfy
The rattle of the bones
Come sounds of tweaking twigs and twines inside
For a second the figure of a boy appears
Summed or summoned by
The world destroyed
The ball in his arms is now rolling hard
He holds the world’s heart in his mouth
Such a threat, it can fall any minute now
He holds the river’s gaze with his feet
Such a sprout, a runner, no trying to keep the eye’s wit.

And the river smiles and obeys
When the boy says
It is time to stop and flow the other way
The women harness silence
They still play a role
But whether to keep or not cleaning their clothes
They do not know
The ball falls in and floats in reverse
I hear them birds are singing
Sending chills on them dusty bones
Awake thy women!, hear the laughter
Of the sun, preoccupy thyselves only
With what thy hath to learn from yer sons

The boy gets the ball without
Laying one finger in the river’s fur and fleas
Way into the meadow
Catching on with the last of summer’s breeze

The women say goodbye whilst forgetting the land’s deeds and pleas and prides
Whimsical truth and lies
You never know which tide the river sides

China meets and strives
With the remainders of the world’s ancient work database
Will the future bring us new songs?
With the burrming of erhu, pipa, guzheng and dizi flutes?
Will history be brought back to life in the hallelujah mountain’s sight?
The world whirls, cries and chimes
It does not want to sing songs
Of craft and love
Starve no more
Thus it is time to be put to bed
And China is kept where it rests
Deep in the meadow
Tangled up in the web
Cradled and broken by theirown’s and some USA global nest.

The women say goodbye whilst knowing time has not yet come
In truth, the child is still in the belly
Harvesting strength, fighting demise
Awaiting the birth of a-new stallion
Running a-far and wise
A-free from one thousand and three hundred and fifty-seven billion sappy tearful lines.

I hear them birds are singing
Do they suffer while they sing?
Hence their loveliness begetters time and reason and
Men likewise?
I do not know
My dress
My soul
Everything is soaked
I put them up to dry
Together with the women’s right and fairness for life.
May it dry
May future be warm and bright.

As we walk out one evening
Where desire does not meet salvation
And the river awaits for its salute
I lay with the boy
Alas
At least we are both blessed
Filled with joy.

The Following is A Goodbye

To Herbert Alves

You did made me grow
But now it is over, time for me to go

I left your importance behind
If you want it back,
Feel free to go ahead and try to find

I left it under my doormate
Though I don’t really remember why
It surely wasn’t for the satisfaction of stepping upon it
Everytime

It had something to do with keys
And locks
And clocks
And times

But, oh!
Just forget it.

Now
I left it all behind
My cheeses
My cats
And my morning velvet hats
The things I dearly collect

Now
It is time for day to go on by
This is my absurd
My creation
My goodbye

You will be harmed –
Maybe destroyed
But you’ll learn how to master life
And live
And fly
And be the greatest in your meandering tides

But this time
Less alive.

Verdade

Quero te contar um negócio, só cá, entre nós, que eu sei que vi! Certeza. Mas… Nossa!

Ele a segurava como se fosse coisa, como se fosse mastro que desse a guia exata para todos os rumos: asfalto, mar e planos altos. Como se fosse mastro que nem se preocupava com o leme, com vela e com casco. Ele a abrilhantava mais do que graxa de sapato, dizia ser de dourado suas cores e a erguia sobre cabeça como se troféu fosse.

E eu, desatinado, me retia a estibordo muitíssimo enjoado em ter de estar em sua companhia nessa viagem transatlântica. As ondas subiam e desciam e eu mais louco ficava, louco endoidava, e pensava: e se eu roubar a coisa? E se eu sumir com ela? Poderia assim dar posse dela aos porcos – que não sabendo do que se tratava, a engoliriam, e o problema estaria resolvido por algum tempo. Porém, na maré mais cheia, quando a lua está mais desapaixonada, o refluxo surgiria, o mal estar tomaria parte da jogatina suja. Engolir coisas sem saber o quê de sua coisura nunca é bom, diria o médico. Porcos, honestos que são, me devolveriam a coisa… E o que fazer dela?

Meu olho pestanejava, o Sol se escovava entre as nuvens e pouco a pouco seu brilho ia aumentado. O primeiro contato com o calor é sempre bom: ele começa por alterar seu estado molecular, sem contanto que sua fase mude num súbito. Se ao menos eu pudesse matar… Matar também não era uma boa opção. A justificativa do homicídio daria razão e causa à coisa – mal inicial que afetou os porcos.

Enquanto eu esperava, debruçado ao apoio do navio, esperando que os raios solares penetrassem assim, também devagar, pelos meus poros e ajudassem a clarificar a minha mente tão perturbada, um aglomerado de 3 pessoas se juntava agora para olhar debaixo da escotilha a coisa que o moço erguia, que agora tinha voz própria e se auto enunciava dourada. Que absurdo! Que grau complicadíssimo de metamorfose que nunca jamais transpassaria pelos meus pensamentos doentios. Era penoso ver e ouvir uma coisa que não existia ganhar voz própria e começar a caminhar com pernas peludas pelo convés.

Eu temia – temia mais do que a morte, ver com meus próprios olhos aquela coisa que uma vez fora só vento de pensamento humano, se meter numa vasilha extremamente compacta e lacrada de carne e osso. Eu temia por demais. Quem sabe, se fosse alto e belo, timbrasse palavras c’uma afinação de tenor, possuísse olhos castanhos miúdos e puxados, pele morena d’ouro bronzeada, eu também, um ser que se acreditava a salvo de vícios e asneiras, me apaixonasse (afinal, essas eram as características físicas que sempre me atraíram aos rapazes). Daí a paixão prosseguiria de tal modo: primeiro eu elogiaria a beleza de sua aparência, contudo, ressaltando que o seu conteúdo tinha a mais alta e nobre qualidade. Segundo, eu lhe levaria flores e pediria que me acompanhasse por um passeio pelo deck, convidá-lo-ia para dançar, tomaríamos champagne e eu embriagado de todas as formas possíveis, confessaria meu amor do mais puro e honesto desjeito de parolar – afirmando que eu já não poderia mais viver sem aquela presença, sem aquele sentido de vida. Terceiro, antes de ele me responder de volta se correspondia aos meus sentimentos, se me amava como filho, ou se me dizia que era bom sermos só amigos, eu lhe diria: não importa! Não importa… Por favor coisa (pois até agora eu tinha medo também de perguntar seu verdadeiro nome. Ora! poderia ser qualquer coisa, não é mesmo? Temia ser algum daqueles nomes com ismos no final), -repetindo- Por favor, coisa! não me abnegue d’um sentimento, quero amá-lo como agora para sempre, pois amar me faz grande e me sinto crescer. Achei minha vontade de viver em toda sua coisisse! Quarto, nós finalmente nos aproximaríamos como seres sociais, trocaríamos as fábulas de nossas vidas, nossos sonhos e anseios mais próximos ao coração, faríamos promessas de apresentar cada outro a sua nova família. Mas daí… Daí ele me diria que era filho da melhor mãe do mundo. Ele era filho da Verdade, mas como ser sujeito extremamente humilde que era, não se permitiria dizer “filinho de Verdade, verdadeiro é”. Bom, não ainda, pelo menos. Quinto, e eu esperaria por esta última confissão, até minha morte. Sexto, eu morreria feliz acariciando suas pernocas peludas, mas sem nunca de fato saber se a coisa era ou não aquilo que ela dizia ser.

Por final, vomitei todos aqueles pensamentos asquerosos no oceano. Os delírios fluíram de minha boca e foram colorir a água, que se encontrava assim meio sem graça, de ressaca. Pedi desculpa aos peixes por infectar sua casa e me retirei do espaço. Depois de tanto relutar, finalmente cedi aos meus conselhos médicos e tomei aquela pílula que era anti-enjoo e anti-mais três outras coisas das quais eu não me lembrava.

Relutante, segui meus pensamentos e minha esguia perna – a da esquerda, porque nunca se pode acreditar muito na Direita… a Direita é sempre metida a esperta – até a escotilha fedorenta, adornada por ¾ de passageiros (agora um menininho de 60cm tinha se enfurnava debaixo de uma mulher, analisava seu ventre para ver se reconhecia-o como de sua mãe). A coisa estava fazendo um furor! Seu original interpretante, criador mor ou talvez apenas ejaculante não sabia mais o que fazer com ela: tinha soltado o bicho mais barbudo e cabeludo no mundo! Não tinha mais controle sobre seus pelos, tentava fugazmente aparar com uma navalha suas monocelhas, mas ele se esquiva, zunia, caiporava que nem Êre de Ocaíta.

O medo já não era mais só meu, e as pessoas se apressavam em fechar a escotilha – a coisa vinha vindo! Tinha uma aparência de feltro podre e caminhava aos solavancos disparatando pelinhos pubianos por tudo que é canto! Enquanto todos se refugiavam, a espera que a coisa passasse, fosse embora e apenas deixasse o rastro de História, o menininho do ¾ saiu pela porta se meteu a bedelhar com a fuça daquela coisa. O menininho deu uma boa olhada pra cara do coisa, e largou risada que só menino de moral magra sabia dar. A inocência crua e cruel das crianças, como matava, como salvava.

– Nossa, feio que nem peste! Sujo que nem imundo! A mãe deve ter posto quatro dentes pra fora depois de tentar beijar esse cú!

Que horror! Um menino de 60 cm que já tinha cú na boca! Aparentemente a coisa pensou a mesma coisa, pois mesmo, se arrefeceu, mostrou-se assim acanhada, sem jeito de responder assim ao menino que ria em larga escalada, píncaros de geada, nevada solene, baita de friaca que gerou em sua pose e autoestima. O alívio me veio com as palavras que eu queria ouvir. Veja bem, eu não sei mesmo se a coisa era bonita ou não, as vezes demoro para achar o carvão, abrir a porta pesada do forno e por combustão incendiar aquela calha na roda chamada opinião, comboio de corda afiada pronto para estrangular. Sorte era a minha, de ter ali um menininho de trêzquartos, cheio de ódio no coração e me dizer que aquilo não era bonito não! Por favor né, ser bichado por criança é negação máxima à possibilidade de ser amado. A coisa se encolheu, foi pro canto do balde e da esponja, se fazendo de vítima, fingindo doer a dor mesmo que doía.

Fim do teatro, a cortina desceu e os adornos saíram de trás da porta. Todo mundo foi lá em cima, tirar satisfação com o cara que tinha pensado aquela coisa. Deram uma boa d’uma pitombada na cara dele. Cheguei a ouvir algo como Ai iai iai! Não faz mais isso! da moça do ventre errado. O final do meu dia foi na cozinha, repondo aquilo que eu tinha deixado pros peixes.

Só depois de muito tempo, passado o rio Ganges, acabado a viagem, chegado em casa, é que fui perceber que eu tinha no bolso uma dessas coisas. Côisa, sabe? Coisa mesmo. Dessas que a gente acha que cria e descobre sozinha e tem vontade de mostrar pra quem tá perto? Foi surpreendente! Foi assim: Ham? então eu tenho uma coisa, coisa só minha? Uma coisa feito coisa mesmo, que eu acreditava que via, que brotava do suor do furo do meu bolso. Eita. Curioso. Eu via que ela também era peludinha, mas era assim, menor que um troféu, do tamanho de uma bolinha de gude. Coisa meiga, coisa fofa, coisa minha.

Metade eu engoli pra ver se digeria, a outra metade eu joguei no lixo e segui a vida.

No final do texto eu dei graças a Deus por me olhar no espelho e ver que apesar de eu usar todas essas flexões de gênero masculino eu ainda era mulher, e confiante, e alegre, e redondamente duvidosa sobre tudo.

ps: ainda dou graças à alguém porque não gosto de deixar palavras sozinhas, e Deus é um nome bunitinho, id est, cosmética ex cosmetikés.

ps2: eu esqueci o que queria te contar… Sabe, lá no começo do texto? Quando eu começo dizendo que quero contar um negócio? “Quero te contar um negócio: socar entre nós…” Mas daí aparece essa coisa e atrapalha tudo? Pois é, esqueci. Bom, devia ser coisa mentirosa então, tipo lorota bem cabeluda, sabe? Porque se é verdade, ela vive e a gente não esquece, não é mesmo? A Léti sabe.