Percepção

Dedico ao meu pai, que um dia falou o seguinte, enquanto segurava um copo de vidro com água: Olhe para isso, que beleza! Existe bebida no mundo mais nobre que a água?! ÁGUA!

Quando eu era pequena, meu pai sempre me levava para caminhar às margens de um rio. O rio não era muito largo, talvez se mergulhássemos como barris, ficando com o tronco a cima para fora, pudéssemos caminhar até o outro lado. Mas papai não gostava de incentivar meu espírito de aventureira, eu já era macaca por demais naquela idade – havia sempre árvores rebuscadas e tortas à beira do rio, ideais para se subir – então sempre ficávamos a andar no mesmo lado. Quando descia da árvore, informava a papai todos os tipos de coisa que havia conseguido enxergar acima das copas, às vezes eram coisas úteis como “O céu está ficando muito pesado, pai. Acho que vamos ter que nadar de volta para casa…”, porém, na maioria das vezes eram coisas com as quais somente crianças se encantam: 3 passarinhos amarelos, 1 verde, uma árvore com flores rosas ao longe do outro lado, uma pipa que não era quadrada nem redonda (não dava para contar os lados), e por vezes, algumas pessoas que passeavam por perto. “Você enxerga coisas de mais subindo tão alto assim!” Era o que papai sempre dizia, e logo completava com alguma piada como “mas esqueceu dessa formiguinha aqui” ou “você viu errado, garotinha, eram 3 verdes e 1 amarelo”, para me deixar irritada. Pais deviam ter uma placa para serem lembrados que não são engraçados.

Um dia por acaso, numa dessas subidas, olhando bem ao longe, quase no queixo do horizonte, avistei algo que nunca imaginei que veria. Quantas árvores já não tinha subido antes e procurado incansavelmente por algo como aquilo? Quem sabe um tronco cortado, caído sobre as bordas das margens, como um lego de brinquedo. Mas não, era ainda mais perfeito. Era como aquelas corcundas de camelo que se vê em desenho – pelo menos apenas uma delas. Redondo, bonito, tinha até apoio para se segurar ao atravessar. Corri os galhos furiosamente, pulando e deslizando ao pé dos ramos, mal podia esperar para contar a papai que aos gritos anunciava “uma ponte, uma ponte!”. Nunca cheguei a atravessar aquela ponte, pelo menos não até hoje.

Depois daquele dia, não voltamos mais a caminhar na margem do rio. Sempre havia uma desculpa. Era mais um trabalho acumulado do escritório, uma tia que iria visitar, mamãe pedindo ajuda para com compras, e meu irmão sempre tendo que ser levado para algum lugar. Aos poucos papai foi caminhando cada vez mais lentamente. Enquanto isso, eu brincava menos, comecei a ir para a escola. Não subia mais em árvores ou contava pipas. Tive que começar a caminhar sozinha, apesar de ser uma das coisas que mais gostava de fazer, a ausência de papai era uma enorme solidão.  Ele agora apenas caminhava até a praça, depois apenas até o correio, e até a padaria, a portaria, banheiro… Chegou um dia que parou completamente, e sua alma sumiu de seu corpo. Mamãe pediu para enterrar o resto. Parte de mim ficou inconformada, porque ainda guardava uma esperança tola de algum dia caminhar por aquela ponte com papai e ter mais uma daquelas caminhadas longas, e conversas mais ainda. A outra parte ficou apenas triste, carregando aquela melancólica aceitação que se chamava Vida. Papai, muito tempo depois, confessou-me que bem antes de minha descoberta, já conhecia aquela ponte. Ele não queria que visse o outro lado, entretanto, dizia que eu veria outro mundo e que nunca mais seria a mesma – e ele não estava pronto para isso… A maior lorota do mundo! Quando podia, eu sempre surgia com perguntas. “Por que seria diferente?”, “Por que não vamos lá hoje?”, se não respondia com “‘Por que’ é um bom começo para um pergunta.”, apenas sorria. O outro lado era praticamente idêntico ao que andávamos, só um cego não perceberia.

Avistei um homem ao outro lado, ele estava  sorrindo para mim, e sua mão balançava no ar. Eu reconhecia aqueles cabelos e aquela silhueta barriguda. Uma lágrima escorreu meu rosto rapidamente. Ele fingiu estar zangado comigo por eu tê-lo desobedecido – um pastelão. A mão não parava de balançar, parecia tentar falar algo. Mesmo estando do outro lado, escutei sua voz como se fosse num sussurro. “O que você enxerga agora, filha?” Eu estava assustada, emocionada demais para responder qualquer coisa. Não era algo sobrenatural o que eu presenciava, era algo que apenas algumas pessoas conseguem tirar do dia-a-dia. Alguns chamam de magia, epifania, outros de criatividade, genialidade… Eu chamo de percepção – não é todo dia que ganhamos uma nova. Não posso afirmar se realmente enxerguei meu pai naquele dia, mas garanto que via muito mais do que apenas galhos, pipas e passarinhos.

One comment

  1. Querida filha Laise,
    Você é quase uma profeta ao discenir tão bem as visões que busca captar de imagens de uma infância feliz. Para mim, foi essa a mensagem de seu lindo conto. Ainda mais, fico lisongeado por ter sido aventado em sua rica história e perceber o quanto tem valor um pai para sua filhinha. Fossem todos os pais iguais a esse, ou melhores que esse, pois então aprenderiam que NÃO EXISTE COISA MELHOR NO MUNDO QUE SAIR ANDANDO COM SUA FILHINHA PELA CIDADE E SENTIR SEU ESPÍRITO ENTRELAÇADO AO DELA. Haja coração! Savio, em 06/07/2013 (depois de um belo passeio a Copacabana, com sua filhinha Laise. Nada é por acaso!).

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