Ciclos

Ela estava lavando a louça, como numa tarde de quarta feira qualquer. Susana, esse era seu nome, ainda se lembrava bem. Susana. Cabelos ruivos, encaracolados e bem presos com grampos quase imperceptíveis. Mãe de família, dois filhos na escola, marido corretor. Ela ainda trabalhava, costureira, mas só trabalhava quando queria, ou fosse alguma cliente amiga que pedisse. Susana esfregava os pratos com a esponja, sentia a água escorrer por suas mãos. Teve que parar para colocar mais sabão na esponja. Num minuto de descuido, o prato escorrega da mão. Ele escorrega na pia rodando, rodando, até chegar na borda. Parece que vai parar, mas ele apenas fica de lado em pé, depois caí como uma tora. Barulho. E tudo para – não tem mais prato para lavar. Por um momento Susana não sabia mais o que fazer da vida.  Aquele lindo prato de porcelana, sempre tão cheio de utilidade. A cabeça ficou pesada. Todo dia era enchido com comida, esvaziado, limpo e posto para descansar. Pobre prato de porcelana.

As crianças já iam chegar, e o chão se encontrava agora, literalmente, um caco. Uma inquietação subiu em Susana. Não conseguia pensar direito, não sabia o que era aquilo, sempre fora tão cuidadosa, nunca havia passado por algo semelhante antes. Como as coisas podiam acabar assim? Um vazio no peito. E cabia a ela a tarefa de simplesmente catar todos aqueles pedacinhos e jogá-los fora, como se nunca tivesse sido feito? Para que propósito havia sido fabricado no primeiro lugar, então? Acabar virando nada. E logo ali, na pia, enfileirados, havia uma massa de pratos limpos, achando que estariam seguros de qualquer mal, de qualquer rachadura. Até quando! Até quando, Deus? Até quando não serão eles também atirados ao chão, despedaçados, até que seja impossível juntar se os pedaços novamente. E nada, Deus, nada restará. Pobre prato de porcelana. Vivera em atividade constante, e por um momento casual, fora despedaçado, deixava de ter um propósito.

Agachara para catar os pedaços. A vontade de chorar crescera. Percebera que havia cortado o dedo no processo. Era dor, muita dor. Porque viver tinha que ser uma enorme dor? Só pensava no sofrimento. O mundo sofria muito. Quantos pratos não se quebravam naquele instante, e depois se tornavam vazios? Susana largou o resto dos pedaços e correu para o banheiro. A cozinha não precisa ficar mais suja do que já estava com ela ali. Susana agora olhava o espelho. Rachaduras começaram a aparecer. Que angústia. Abriu-o como um armário. Ah, qual era o remédio de que precisava? Eram tantos; Paracetamol, Dipirona, Bonalen, Fenobarbital, Metformina, Amoxicilina, Fluoxetina… Ah, aqui. Clorexidina, o querido mertiolate. Mais um band-aid e bastaria, cobriria sua rachadura como um laço. Seus filhos já estavam chegando, não podiam ver essa sujeira. Pobre prato de porcelana. Agora era apenas sujeira.

– Mamãe! Mamãe, o Pedro morrendo!

Enquanto seus filhos aturdidos entravam correndo em casa, Susana tinha acabado de limpar a bagunça da cozinha. Sentia-se ainda abalada por seus devaneios, porém no espanto de mãe, fora numa ligeireza ao encontro dos filhos na sala. Tomás segurava a mão do irmão menor Pedro enquanto este chorava no sofá, e o falava coisas como “não se preocupa, todo mundo morre um dia. A gente ainda vai se ver, mas você vai ficar um pouco sozinho até lá”. Pedro chorava e chorava, a cara já estava bastante melecada. Ele tinha ralado o joelho. A calça rasgada, ensanguentada. Ao ver a mãe o desespero aumenta. “Mãh, num quero… num qué morrê.” Susana está consternada pelo filho, mas um calor lhe aquece o peito. É apenas um corte, nada lhe fará mal. Não há porque se preocupar, ela já tem o remédio para isso nas mãos. Senta ao lado do filho machucado, o abraça e o beija muitas vezes. Pobre Pedrinho. Não sabe que essas coisas passam.

– Não se preocupa, Pedrinho. Esqueceu que mamãe é costureira? Vou consertar esse machucadinho e sua calça rapidinho, vai ficar bom, novinho.

A garoa do menino passou sem deixar muitas marcas. Pedrinho agora sorria como se para sempre. Sua tempestade encontrou-se com a neblina de Susana e ambas dissiparam. Depois, quando pode, repôs aquele prato de porcelana. Afinal, era apenas mais um prato de porcelana. Se outro quebrasse, mais outro compraria. E ali estaria ele, cumprindo seu papel tal como nunca tivesse sido outro. Susana era costureira. Marido corretor, filhos na escola, mãe de família. Agora quando trabalhava, que não era sempre, ocasionalmente o fio de sua linha se rompia. Demorava para por a linha de volta no lugar, sempre conseguia, entretanto.

Uma semana depois, após lavada, terminara de costurar a calça de Pedrinho. Ela estava ficando pequena. Ai, meu Deus! Um dia ele não a usaria mais… Pobre calça do Pedrinho.

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