Por que tentar me mudar agora?

Quando você é uma pessoa fechada, ou passa por uma fase mais introspectiva, e não quer falar muito e tem reações pouco entusiasmadas a piadas e tentativas de envolvimento, quando você tá se sentindo inteligente demais pra fingir um sorriso e inquieto demais pra sentar no sofá com a sua família pra ver a droga do Domingão do Faustão; não importa se o motivo é uma chatice de um coração partido, um trauma de infância, uma nota ruim; quando você estiver na sua, mais interessado em se afundar em canções depressivas do que em dançar ao tunt-tunt de batidas eletrônicas, as pessoas vão ser muito chatas com você e dizer que você está sendo chata com elas. Você vai virar a garota (ou garoto) rabugenta (o). As pessoas vão tentar te mudar.

“Why Try to Change Me Now” é uma das canções mais lindas que eu conheço do Frank Sinatra. É uma das únicas canções que eu conheço do Frank Sinatra.

“Why Try to Change Me Now” também é cantada pela Fiona Apple, uma versão linda da canção.

Em 1996, Fiona Apple lançou seu primeiro disco, intitulado “Tidal”.

A segunda faixa de Tidal é sullen girl (garota rabugenta). Fiona Apple era uma menina fechada e as pessoas não hesitavam em estampá-la com o rótulo de rabugenta. Tentavam mudá-la. Uma das estrofes dessa canção, sullen girl, traduzido por este que vos fala, diz o seguinte: “É por isso que eles me chamam de garota rabugenta?/ eles não sabem que eu nadava no fundo e tranquilo mar/ mas ele me carregou para a praia e ele levou minha pérola/… Fez uma concha vazia de mim.”

Concha vazia… Isso me lembra de algo. Bom, acho que o que tô tentando fazer da maneira mais prolixa possível é lembrar (a quem conseguir chegar a este ponto do texto) que as conchas vazias já estiveram cheias. Talvez sejam preenchidas novamente. Por alguém. Por algo. Por uma canção, por um beijo, por uma vaga numa federal, ou por um filhotinho de cão cheio de amor pra dar. Ninguém é ou está rabugento porque quer e a “rabugência” não faz parte da personalidade assim.

Se as garotas, os meninos, as mães e os pais, os avós, professores, motoristas de ônibus e todo aquele pessoal não é rabugento no âmago de suas existências, por que tentar mudá-las agora?

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