Oh, Manaós

Manaus. Manaus é… Manaus é tapioca. Manaus é tambaqui na brasa, açaí, tucumã, tucumã no pão com queijo e banana, banana pacovan, banana frita, banana chips, todas as bananas de acompanhamento com farofa, farofa com sardinha frita, farofa de farinha, farinha com feijão, feijão apimentado, guaraná em pó, guaraná em molho, pirarucu gratinado. Manaus é Norte, é vatapá, tacacá, cupuaçu, farinha grossa. Manaus é muita salada, mas eu não gosto de salada. Manaus é um prato colorido, e me encheu de muita coisa boa durante alguns dias. Se todas as cidades fossem só comida, seria mais fácil escrever um texto desses.

Por algum tempo venho decidindo como abordaria Manaus, nunca me dei conta, porém, de como é difícil falar em detalhes sobre uma cidade. Não existe só uma cidade, assim como não existe só uma Manaus. Como propôs Italo Calvino, existem até Cidades Invisíveis, que apenas quando entoadas por alguém ganham vida. A Manaus da culinária é muito boa, as vezes um pouco carinha, mas o sabor de alegria que fica na boca depois, compensa. Acho difícil eu ter visto todas as Manaus. Vi a Manaus da beleza, da fauna e da flora, da História, da pintura e dos contrastes. Não vi a Manaus da música, da dança, da violência. Entre a riqueza e a pobreza, suprendi-me com a riqueza que subestimava, vislumbrei pouco da pobreza, mas consegui imaginar em grande escala. Fiquei imaginando da onde vinha a Manaus da poeira, no meio de tanta floresta e natureza.

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Oh, Manaós! Que agora perdestes os Ós e caístes para Us por uma questão de grafia. Perdestes também teus filhos? Eu achei que mergulharia num mundo de cabelos negros lisos, peles cor de amêndoa e olhos puxados. Triste engano. Demorei para me deparar com feições de um legítimo Peri. A História que da nome à cidade é uma tragédia (se minhas fontes não estiverem erradas) que conhecemos bem. Tribo nativa valente tenta lutar contra ocupação de estrangeiros, nesse caso os portugueses – depois de muito lutar, perde e é exterminada. A terra ficou com o nome da tribo para servir como alerta para as outras, no entanto os portugueses se pudessem, queriam mais é que os índios fossem esquecidos. Índio não é civilizado, e na Belle Époque de Manaus, no boom dos seringais, tudo o que Manaus menos queria era ficar com cara de índio, e sim ficar com cara de Paris.

Teto do Teatro Amazonas  imitava a sensação de estar sob a base da Torre Eiffel (construção iniciada em 1884 e inaugurada doze anos depois)

Teto do Teatro Amazonas imitava a sensação de estar sob a base da Torre Eiffel (construção iniciada em 1884 e inaugurada doze anos depois)

Apesar de bastante urbanizada e ter cara de metrópole moderna, Manaus tem um misticismo que não consegui desvendar. Quase não se vê pedintes na rua, mendigos a lástima da sorte  e ou crianças abandonadas. Ouvi algo a respeito do governo direcionar os homens e mulheres de rua a oficinas de trabalho, acolhimento em moradias sociais. Que ótimo, pensei. Estão sendo ajudadas. Disseram-me também que Manaus não propagandeava isso porque surgiriam ONGs humanitárias reivindicando os direitos do indivíduo de permanecer na rua. Nunca tinha parado para pensar nisso. Quiçá, também nunca tinha me passado o pensamento que alguém se sujeitaria a dormir na rua por gosto e escolha própria. No entanto, ainda há algo desconfortante sobre isso. Ao redor de Manaus, nos rios, há milhares de comunidades ribeirinhas, todas muito afastadas umas das outras. As vias de acesso são por meio de canoas em geral. E é ali, depois dos igarapés, dentro da mata de igapó, que surgem algumas daquelas almas que sentimos falta na cidade.

Crianças entre 10 a 15 que se aproximam do barco passeio para vender balas de Cupuaçu e Castanha do Pará

Crianças entre 10 a 15 que se aproximam do barco passeio para vender balas de Cupuaçu e Castanha do Pará

Manaus é uma cidade digna a uma música à la Granada, com honrarias de ser cantada por alguém como José Carreras. Não é Eldorado, mas sem dúvidas é uma terra sonhada por muitos. Tem toda história, beleza e melancolia para isso. Se conseguir vencer o calor e os mosquitos, já é meio caminho andado para poder aproveitar tudo o que há de bom em Manaus. Não pode ter medo de ser expor a natureza, no entanto, afinal é o que há de diferente e libertador. A experiência de nadar num rio amazonense é riquíssima. A água é mais calma e gostosa do que da praia, e que além de você estar sujeito a esbarrar em mais peixes e criaturas, também corre o risco de meter o pé numa estaca de madeira e se auto empalar. Para quê medo? Entretanto, se não tiver tamanha adrenalina para isso, em alguns locais, há sempre pseudo canoas para serem utilizadas, e fazer com que você se sinta um grande desbravador.

Rio Solimões

Rio Solimões

O Norte nunca foi menos Norte e mais Brasil na minha cabeça. A pior coisa dos esteriótipos é que você é obrigado a aceitá-los se não tiver mais de um ponto de referência. Não sei se é uma ideia errada minha, mas senti que muito jovens foram as manifestações em Junho em busca de um sentimento de pátria. A minha dica agora para aqueles que acharam esse sentimento, que tal ir conhecer a sua pátria? Consigo contar nos dedos as pessoas de minha idade que conheci que já foram para o Norte, não tendo nascido lá. Se você é uma pessoa que goste de viajar a outros lugares para simplesmente conhecer sua cultura, construção civil, e não apenas consumir, Manaus é um lugar interessantíssimo. Sejam pelas estátuas de Felipe Lettersten, o maior Museu de Numismática da América Latina (em acervo) ou as belezas naturais da Floresta Amazônica, você facilmente encontra uma novidade para conhecer em Manaus.

Centro de Manaus; Atrás, o Palácio da Justiça; ao lado, muro do Teatro Amazonas

Centro de Manaus; Atrás, o Palácio da Justiça; ao lado, muro do Teatro Amazonas

Fontes:

2 comments

  1. Bela descrição da minha terra, Laise! Parabéns! Gostei muito do que vc falou sobre os estereótipos… e como há gente cheia de estereótipos… aiai.

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