A Cidade de Cícero

Cícero era um menino ingrato. O padre dizia: Ajoelha Cícero! E em pé Cícero ficava. Ousadia não faltava em sua vida, dizia sempre que não tinha medo de nada, mas eram coisas de menino que ninguém acreditava.

Cícero nasceu sem mãe, dizem ter sido parido pelo mundo, e nele ele se perdera. Perdera-se de verdade! Entretanto não se perdera-se nas pedras exaladoras de fumaças, perdera-se nas pedras do calçado, nas ruelas, no meio fio. Cícero desobedecia tanto aos que o acolhiam, nunca tinha hora para voltar da noite. Os perigos da noite ainda te arrastam para o buraco da Terra, dizia dona Betina sempre que o via parar para brincar nas caixas de areia do parque público na Vila Iracema. Cícero nunca teve vontade de cavar fundo, então achava loucura da velha. Além do que – Medo eu não tenho! Castelo caído e areia pro ar.

Um dia, num de seus perambulos noturnos, encontrando a porta trancada resolvera não voltar mais para o teto que lhe cobria os olhos. Cícero desfrutava das felicidades que a Vila Iracema lhe dava. Não tinha Lego, mas adorava brincar de Direito à Cidade com a caixa de areia. Como o mundo era sua mãe, ele gostava de dar presentes lindos a ela, como ruas mais amplas, um monte caixas de sapatos que zuniam pelas suas ruas, carregando e descarregando as pequenas formigas que precisavam seguir um horário para trabalhar. Cícero gostava de enfeitar o mundo de verde, caçava os galhos com mais folhas que podia e os metia na areia. Cícero construiu inúmeros palácios do poder – um poder justo, que numa caixa de areia, as formigas eram prima usuárias. E mesmo assim, elas não conseguiam aproveitar todas as benfeitorias que Cícero tinha dado ao mundo. Elas trabalhavam demais, e sempre estavam num estado convalescente. Cícero tinha pena, mas se divertia em brincar na caixa de areia.

Um dia, o mundo que Cícero esquecera o tomou o parque. Iracema inteira parecia ter sido privatizada. Cícero era pobre, e sofreu com isso. Não tinha mais caixa de areia para brincar, diziam que agora Cícero não teria mais lugar no mundo. Mas isso era impossível, esqueceram-se eles que Cícero havia sido justamente parido por Ele, o Mundo? Toma cuidado se você quiser lutar para ficar aqui, ainda te enterram vivo, disse um dos homens que trabalhava no Governo do mundo. Mas Cícero não tinha medo, não fugiria! Ao invés disso, Cícero se fundiu as paredes mal construídas, nos arredores de um terreno baldio. Deu um jeito ou outro de se meter entre os tijolos das construções inacabadas e lá permaneceu. Expôs suas ideias no concreto, excretando tudo o que seu corpo precisava para avisar o mundo. Andava no meio dos muros, por dentro dos cimentos fortalecendo laços, ganhando espaço com sua voz naquele mundo tão compacto, naquelas ruas tão caladas. Não durou muito até que as ruas começassem a berrar – berravam pelo parque Vila Iracema, berravam pela caixa de areia, e berravam pelo Direito à Cidade. Cícero se encheu de alegria. Sua mãe ficaria mais bonita, mais contente também.

Tempos passados, o terreno foi tomado de volta e as paredes podres começaram a finalmente serem reformadas. Cícero não gostou do barulho da construção, incomodavam-o as conversas de pedreiro, além de que há muito já estava em paz com a solidão. Cícero resolveu buscar um lar mais tranquilo, então por baixo da terra andou. Muitas rochas encontrou pelo caminho, pedra que não acabava mais. Cícero se acomodou por alguns dias em algumas comunidades de formigas, no entanto não conseguiu se adaptar bem a vida acelerada e cheio de trabalhos árduos. Perguntava para as formigas porque elas trabalhavam tanto, mas elas não tinham resposta. Eram formigas afinal de contas. Tinham sido formigas há tanto tempo que nem sabiam mais o que era pensar. Bem, era o que ela achava pelo menos.

No formigueiro, pegara o metrô e descera na última estação, na última hora do dia. Cícero já tinha passado por muitas estações na vida, mas não lembrava de nenhum tão quieta, tão passiva. Podia tanto fazer o que queria que até sua valentia perdera lógica. Não tinha mais ninguém para dizer que ele tinha que temer, ninguém para mandá-lo ajoelhar. Fora ao banheiro lavar as mãos, que carregava imundas desde o surgimento da primeira civilização. Cícero se olhou no espelho e o espelho olhou para Cícero. Quanta imundice, quanta poluição Cícero via. De repente, um som de sapatos mocassim e chapéu panamá entrou pela porta. O som vinha dançando, sua boca dourada estalava como se acompanhada por dedos de jazz. O som cantava a música de Cícero, e logo era Cícero quem era cantado. Cícero adorou o que ouviu, decidiu que ali pararia de brincar com caixas de areia para sempre, para poder se tornar apenas música e viver nas canções que não tinham futuro nem passado. Só então é que percebera: O que havia faltado em Cícero para sossegar em sua cidade era apenas um pouco mais de arte – uma arte que não apenas dá brilho a cidade, mas vive por ela.

Guardar

[…]Guardar uma coisa é olhá-lá, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.[…]
– Antonio Cícero

Fontes:

  • http://www.releituras.com/antoniocicero_menu.asp (Acabei tropeçando sem querer nesta parte de poema num texto de língua portuguesa, sabe-se agora que eles não são inúteis. Então percebi um cabimento enorme de compartilhá-lo com esse texto)

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s