Guerra

Para ser curta: este aqui é um experimento. Queria que existissem trilhas sonoras para certos textos, daí achei que seria legal talvez criar um texto através de uma música. Infelizmente não tive a capacidade de dispor um player decente, então fica a critério de quem quiser ler se ambitualizar (ler junto) com a música.

Aqui eu já não ouço mais barulho. Apenas o barulho da minha mente. Não vejo mais as luzes das cidades, o rompante dos carros, as criancinhas correndo para atravessar as ruas, as velhas senhoras que têm estampado nos olhos a cautela, pois sabem de todos os perigos do mundo. Sinto falta dos latidos, do cheiro dos vira-latas, das noitadas de cerveja barata. Se vejo uma flor que seja – porque aqui em campo elas são raras, logo lembro de todos os perfumes, de todas as mulheres com que já me deitei. Não era romântico. Não sou. Besteira achar que um dia isso me adequaria para o papel de um soldado. Meu nome fora perdido nos desterros da humanidade. No primeiro tiro, a tinta que estava gravada em meu documento de identidade jorrou como se houvesse ganho vida, e o manchou por inteiro – nunca mais pude ler o que estava escrito, nem ver a cara do homem a quem lhe pertencia. Aqueles números no entanto, que lá foram gravados em relevo ficaram. 70.003.133-5. Sou um ímpar.

Agora eu coleciono pessoas. Uma vez escrevi na lataria de um carro com um cascalho grosso: Eu peguei uma parte de você e lhe dei um valor imensurável. Disseram-me que eu era louco, nenhuma pessoa é imensurável. A verdade é que as pessoas não sabem mensurar a si mesmas, muito menos aos outros. Em geral, chutam um valor baixo. Eu não discordo, temos pouco valor. Você nunca será parte do perfeito. Você é horrível. Você falha a cada dia. Você vive por viver e não sabe o que é isso. Mas há os olhares, os sorrisos, os suspiros, o tom de voz. Você carregada o remédio para nossa espécie. Se você está aqui lendo isso agora, sozinho, saiba que eu o odeio, e que você é uma merda que não serve para nada. Passei a tarde inteira fazendo isso. Eu já me esqueci o motivo, mas parecia ser uma ideia tão boa, tão prepotente, miserável e ridícula. Tão humano. Deixei ela lá por alguns dias – mas números não deixam registro, e os clarões do dia seguinte fizeram questão de me lembrar disso. Seria uma morte quase poética se eu tivesse sido carbonificado lá dentro, com as palavras.

Aqui eu já não ouço mais palavras. Apenas apitos e comandos. As palavras me escaparam, ficaram embaixo daquele poste que não consegui erguer, escondidas no meio dos corpos largados para trás, nas trincheiras, no vazio dos olhos dos pequenos, prestes a serem empacotados. Carbonificina. Fizeram uma fogueira com todas as palavras, e deixaram que elas queimassem. Disso gerou uma massa incrível de silêncio. Descobri que o silêncio cheira a fagulhas de cinzas, e aqui e ali, elas queimam na gente. Uma vez em quando surgem letras. Letras prolongadas, que se tornam gritos. Mas estes são logo silenciados também. O silêncio é senhor. Ele cala o medo. O medo calado, meu medo calado – meu medo é ser só mais um número. Mais um dado, mais um índice, como todos esses outros. Foi por atentado. Uma bomba destroçou uma escola ontem. Sete estudantes foram achados mortos dentro de uma caçamba de lixo. Tragédia no México. Tragédia na Síria. Tragédia na China. Trabalhadores sofrem exposição a substâncias tóxicas. Menino é soterrado na Tailândia. Mulher é apedrejada. Homem perde o controle com o carro. Medo de ser notícia. Mas agora é tarde, pertenço aos bastidores.

Agora eu coleciono pessoas. Não sei o que é arte, não sei me expor. Entretanto quando julgo necessário, a invento. Isso me faz sentir menos sozinho. Nem os cachorros me fazem mais companhia. Eles têm mais medo que eu. Nunca gostei muito de animais, porém agora eles são seres mais vivos do que eu. Eu me perdi no poço do sinistro, junto com as respostas sinceras. Sobrevivo as custas dos berros, dos gritos de pavor, dos olhares abatidos, das raras lágrimas que nunca secam. Sobrevivo dos pequenos fragmentos de humanidade – aqui quase todos já viraram números. O que eu não daria para ouvir uma voz, uma bela voz, cantar ao luar. Mas aqui eles só cantam aos dentes, aos apitos. Nem lua mais aparece, seu brilho foi ofuscado pelas chamas da disciplina. Disciplina, persuasão e submissão. Se dizem que não há lua lá, é porque lá lua não há. Eu fugi das botinas e dos capacetes, não obstante, estou condicionado a mesma marcha de sempre. Não estamos todos?

Aqui eu já não ouço mais o amor. Apenas os resmungos de dores. Homens em seus leitos. Leito, o que eu não daria por um leito. Leitos de rios, estáticos. É a vida deixando de fluir aos poucos. Eu lembro que já amei mãos – como na música de Bunyan, mãos que sabiam falar com seus movimentos, mãos sorrateiras, apressadas, mãos calmas e passivas, mãos que mimam escalpos, transmitem certezas sem necessariamente produzir verdades. Sinto falta das mãos que davam risadas, que corriam contra o vento, que mexiam nos cabelos por um espasmo de amor qualquer. As mãos que agora toco são frias, ásperas – tão duras que aqueles mesmos cães preferem morder pedras.

Agora eu coleciono pessoas, porque esse se tornou o meu ofício. Não carrego uma foice, e até arrancaram de mim as pistolas que carregava no bolso. Não é de bom grado que desfiro a terra machucados – todo santo dia é mais um buraco. Entretanto é o que sobrou para alguém que desistiu de fazer parte dos agentes do caos. O remorso é um sentimento mais poderoso do que o ressentimento. E é por isso que estou aqui – mesmo com as mãos sujas, mesmo com resquícios de fel, com fungos aos poros do rosto, como um queijo fedido. Aqui, onde já não se ouve mais nada é assim: Ou você mata, ou você enterra. Raros são os ecos do futuro, os ecos da mudança. O presente se tornou um quintal lúgubre para o passado, onde me tornei o encarregado de rever todos os rostos pálidos, verificar se uma vez realmente foram humanos. A Guerra só findara quando o último dos coveiros se lançar sobre o buraco cavado, e junto a si, soterrar a natureza sórdida dos desumanos. Eles? Nós – que dizemos tudo ao não dizer nada.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s