Mentalmente preguiçosos? Geração Y? Será?

Se há uma coisa em que a humanidade é unânime através dos tempos é em ser nostálgica, em criticar o ontem em detrimento do hoje. Um amigo uma vez me disse de uma citação de Sócrates em que ele critica a juventude de ‘hoje em dia’, que não fazia mais que papear e perder tempo. Bem, depois de uma breve pesquisa (talvez envolvendo a Wikipédia, talvez não), descobri que a citação não é exatamente de Sócrates, mas oriunda de uma comédia de Aristófanes, As Nuvens. É claro que não nos importa saber quem disse o quê, exatamente, mas perceber que a crítica à juventude é –no mínimo- tão antiga quanto essa obra, que data do século V antes de cristo (agradecimentos à Wikipédia, novamente).

E aí? Então a sociedade humana está num ritmo de decadência espiralado desde os seus primórdios? A cada geração, mais e mais nos afastamos do epítome da perfeição que, supõe-se, seja o homem antigo, numa corrida contra-evolucionária em que as novas gerações invariavelmente são piores do que seus pais? Exagero, é claro, mas a minha tese é que a sempre presente crítica aos mais jovens é igualmente absurda.

Sou jovem. Afirmo logo, assim, de cara, pra não dar ao leitor falsas expectativas: sou jovem, e falo na posição de jovem, isto é, como a geração nova que é criticada. Só tive um gostinho do outro lado, até agora (“Na minha época, os anos 90, as crianças não andavam com iphones e afins por aí, que absurdo!”), mas acho que isso não me desqualifica para escrever esse texto. Também, se desqualificasse, quem haveria de escrevê-lo, afinal de contas.

Pois bem, aproveitando essa menção ao iphone, trago o assunto da tecnologia e as relações sociais. Até que ponto estas são influenciadas por aquela, e em que sentido? Bom? Mau? A opinião hegemônica parece ser, respectivamente, ‘muito, e num mau sentido’. Supostamente, encarcerados voluntariamente em nossas ilhas de tecnologia, ficamos mais e mais alheios ao outro, ofuscados pelo nosso próprio ego, que é exponenciado pelas redes sociais e afins até assumir proporções catastróficas. Estamos preguiçosos por causa das mordomias da ciência. Desaprendemos a arte de escrever graças ao twitter. A facilidade de se editar uma música (sou burro com tecnologia, não tenho a menor ideia se isso é fácil ou não, mas, dizem ser) faz com que os músicos hoje sejam rasos e vãos –que bom, porque se encaixa perfeitamente com a geração de pessoas rasas e vãs que é a nossa juventude. Será?

A minha opinião é de que a tecnologia –e, por tecnologia, no caso, quero dizer especificamente a evolução dos meios de comunicação– funciona mais ou menos como uma lente enorme das relações humanas. Não estamos mais ou menos isto ou aquilo, apenas o isto ou aquilo que fazemos (e acredito que sempre fizemos) se torna infinitamente mais evidente aos outros quando postamos uma foto desse isto ou aquilo no instagram. Não estamos mais sozinhos, muito pelo contrário: o solitário do século XIX não tinha muito o que fazer para aplacar sua solidão, enquanto o solitário dos dias atuais tem todo um arsenal (facebook, omegle etc) para combater essa solidão e gerar possibilidades de novas amizades. Os amigos de amigos nunca estiveram tão próximos de nós como hoje, por essa razão. Eu poderia contar de como eu, pessoalmente, há pouquíssimo tempo, conheci pessoas bastante interessantes (que, de outra maneira, provavelmente seriam para sempre desconhecidos) unicamente por causa do facebook, mas não vem ao caso. Garanto que há inúmeras histórias que sustentem minha tese, de forma que não é preciso explicitá-las agora. Há pessoas cegadas pelo próprio ego, é claro, mas sempre houve. Qualquer romance romântico demonstra um claro –e muitas vezes exagerado– individualismo, marca não do mundo tecnológico atual, mas da ideologia burguesa que vigora desde as revoluções liberais do século XIX; hoje, contudo, os egotistas têm o facebook.

Tampouco os outros aspectos da sociedade foram prejudicados pela tecnologia. As mordomias da ciência não nos impedem de trabalhar duro, talvez até o contrário: acredito que um executivo hoje em dia com um laptop trabalhe muito mais do que o dono de fábrica de outros tempos. O twitter não matou a escrita (o Saramago que me desculpe) mais do que o cinema matou o teatro, ou o kindle matou as cópias físicas dos livros. A música hoje não é ‘rebaixada’ pelos avanços no uso de aparatos eletrônicos, tampouco se tornou mais vã por isso. A música de ontem não foi sempre profunda e emocionalmente significativa (That’s the way, uh-huh uh-huh i like it, etc), assim como a música de hoje também não precisa ser. A difusão da tecnologia na nossa sociedade, ao contrário, permitiu mais e mais músicos pequenos ganharem espaço no cenário musical. Quer baixar um álbum de um cantor africano pouco conhecido? Internet está aí pra isso. A ascensão da cena indie é um exemplo desse pluralismo maravilhoso que temos hoje.

Eu acredito poder continuar discorrendo minha tese em outros nichos, mas acho que seria exagerado. Em síntese, não me parece que a sociedade de hoje em dia seja necessariamente melhor ou pior do que a de ontem, apenas diferente em alguns (muitos) aspectos, mas o ser humano é naturalmente conservador e não vê com bons olhos as ditas mudanças.

Por outro lado, eu sou só um integrante da geração Y, e essa geração certamente é pior do que a geração X, então se sinta livre, leitor, pra descartar tudo isso que eu falei. Ou não.

One comment

  1. Eu diria que a “culpa” dessa nostalgia onipresente no tempo é uma: a gente tem uma forte tendência a lembrar de coisas boas do passado e esquecer das ruins. Ótimo isso, melhor que ter trauma de cada detalhe triste. Mas talvez daí venha a falta de olhar crítico para o passado. O que já foi, por algum motivo, é muito mais emotivo e pessoal que o que está sendo e o que ainda será.

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