Devaneios causados por uma playlist em modo aleatório durante uma curta viagem intermunicipal.

Esta noite eu entrei no ônibus, voltando da faculdade, agradecendo ao universo por ter ar-condicionado naquele veículo, como de costume. A viagem dura um pouco menos de 30 minutos até minha casa, e às vezes eu passo esse tempo lendo livros ou quadrinhos, às vezes estudando, mas na maioria das vezes eu o uso pra ouvir música, e foi o que eu fiz essa noite.

Pus no modo aleatório e cliquei em avançar, daí começou a tocar Mary Jane, do épico álbum Jagged Little Pill da Alanis Morissette, de 1995. Eis que começo a pensar direito sobre música, não tentando definir ou dissecar ou qualquer outra coisa impossível de se fazer, mas sim pra entender porque é que canções como Mary Jane provocam em mim certas sensações. Eu cheguei a uma meia conclusão (satisfatoriamente insatisfatória, porque eu não estava buscando nada de fato) que a música é a vida em forma de poesia. Todos os sentimentos (So take this moment Mary Jane, and be selfish…), preocupações, erros, suas amizades e seus amores! Tá tudo lá, não tá? Tá nas canções (and worry not about the cars that go by…) que nos fazem sentir algo. Uma vez eu vi uma entrevista em que a Alanis Morissette dizia que escreveu as letras de Mary Jane para uma amiga e também sobre alguns problemas pelos quais ela mesmo estava passando (‘Cause all that matters Mary Jane is your freedom…), ou seja, a música foi resultado da vida daquela mulher, ao meu ver, e isso a torna única (so keep warm my dear, keep dry!)🙂

Como eu sou uma pessoa sem barreiras, a playlist seguiu e desembocou numa das músicas do novo álbum da Lady Gaga, Do What U Want. Muito menos sutil, mas não tão menos sensível, se você ouvir (mesmo) enquanto escuta (I will fall apart if you break my heart…). Sim, são rimas mais simples, mais repetitivas, mais apelativas, mas por que diabos haveriam de ser ilegítimas? Eu acredito que, (So just take my body and don’t stop the party!) sim, até Lady Gaga é música de verdade, que vem do coração, que há sentimento, que é vida transformada em poesia.

A playlist foi passando e de Foals, passando por Laura Marling e Vivendo do Ócio, eu fui parar numa Cat Power melancólica e exausta por tentar ser grande na épica canção The Greatest. Eu sempre me pego reflexivo quando a ouço, (Once I wanted to be the greatest. No wind or waterfall could stall me…) não sei, acho que é o conjunto de instrumentos, a letra, a voz cansada (And then came the rush of the flood, stars of night turned deep to dust…), que me lembram sempre das minhas fraquezas, de que eu não sou e nem quero ser “O Melhor”.

Perto do ponto onde eu saio do ônibus já, a roda viva girou e me deixou com How To Disappear Completely, do álbum Kid A do Radiohead, de 2000. É uma canção que eu nunca consigo cantar junto, porque eu tô sempre muito ocupado ouvindo (That there… That’s not me…). Talvez seja verdade que um ônibus turbulento não seja o melhor lugar pra se ouvir uma música tão sensível, mas ela nunca falha em me fazer sentir (I’m not here…)… Invisível (This isn’t happening…). Não acredito em coincidência, principalmente depois de assistir Magnólia. Acho que, talvez, o sentimento mais frequente, mais pertinente, mas humano que exista seja o de querer desaparecer. Eu não sei se estou falando besteira, se vou mudar de opinião quando clicar em “publish post”, mas vivendo em um mundo moderno com um ritmo tão difícil de acompanhar, onde convivemos com pessoas cada vez mais ansiosas em gritar e menos dispostas a ouvir, onde o valor da vida é posto em questão todos os dias; percebo que não é coincidência que How to Disappear Completely tenha sido escrita. Não é um dadaísmo. É a vida. Ela está na música… Na da Lady Gaga, na da Alanis, na do Radiohead… Em nós também.

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