una brezza

(Mais um “textos musicado”, a trilha da vez. Para ler com calma e sem pressa.)

Uma brisa.

Por si só pode formar um momento. Sem divagações, sem digressões, só vento. A paisagem se completa por escolha: uma praia, um desfiladeiro, o céu a janela do apartamento, aqueles olhos que permaneceram na consciência, ao lado do fundo da retina, qualquer coisa. A pele se arrepia no movimento do ar, os pelos se eriçam, e o momento está concretizado. Aquilo que havia se tornado desejo parece realizado.

Seja no calor, seja no frio: a brisa vem para ser companheira – de um amor solitário, lembrar que a dor é passageira; de um amor sorrateiro, que num instante desce a ladeira. A brisa é o suspiro que escapou a flauta. A brisa são os pés que andam junto. É a criança que cai na areia, levanta, e cai de novo. E fica ali, no devaneio das coisas que não aconteceram.

Brisa. Correria de crianças. Correria dos risos. É a alegria correndo, se você não se esforça para correr junto, ela escapa, ela se esconde. As mãos vão correndo também, brincam de fugir do abraço que tanto querem. Um dia vamos ter filhos, é a frase dos apaixonados, que não medem preocupações, que querem propagar a emoção que sentem até a eternidade. Mas eles pecam ao pensar nisso. A eternidade se faz no momento. Sua duração costuma ser pouca, precisa ser pouca. Como um arquivo compacto para ser captado pela mente e reproduzido na memória.  Com tamanho realismo – quase até se sente o perfume da lembrança.

Veja Whistler, Monet! Foi só uma névoa, foram só dez segundos. Manet! Era apenas mais uma conversa, um encontro sem presunções. Uma lacuna no dia que foi ocupada por um meia-volta, por um horizonte.Nocturne: Blue and Silver - Chelsea 1871 by James Abbott McNeill Whistler 1834-1903 6330 crepuscule-in-opal-trouville The rocky cliffs of Étretat by Monet.jpg monet-claude-505050 Claude_Monet,_Saint-Georges_majeur_au_crépuscule Monet-_Der_Rosenweg_in_Giverny at-father-lathuille-1879monet harmony-in-blue-and-silver-trouville JamesAbbottMcNeillWhistler-NocturneSilverandOpal

E ainda sim, a pintura fracassa em capturar a completa essência do momento. O realismo se torna fútil. Como um livro romântico por qual nada se sente. Um livro não é nada se não se sente apaixonado pelas palavras que dele entoam. Ainda lembro como se fosse hoje, como se fosse agora: aquela sala cheia de gente desconhecida, aquela família de qual não fazia parte, o caminho difícil para chegar até lá, o Jardim Botânico do qual nunca entrei, gente vendendo arte, mas eu não tenho dinheiro. Van Gogh, ela desenhou tão bem. Qual que era o nome? Não importa. O sorriso das pessoas, as piadas mal entendidas, a incompreensão na semântica, mas a total e devota compreensão no sentimento. Uma explosão de cantoria conjunta. Fosse italiano, fosse húngaro, fosse javanês, fosse canará! Todos entenderiam. A sala completamente abarrotada, cheia de gente, a luz amarela, o piano velho, o cheiro do assoalho de madeira e a janela aberta.

A brisa entrou só para me alertar do meu sorriso, me deu um abraço e foi embora

James_Abbot_McNeill_Whistler_009

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