Saudade

Ela estava embaixo da mesa quando Ana chegou. Silenciosa, nem a percebeu. Cansada do trabalho de abre e fecha bocas, reteve seu olhar num copo d’água gelado, esperando que esfriasse suas angústias. Ana não era só Ana; Ana carregava também Marias e Claras, Bentos e Silvas. E Chico. Chico pesava imensamente. Puxou a cadeira e a empurraram para sentar. Ana não era só Ana, mas Ana era só, e não havia ninguém para lhe avisar do perigo embaixo da mesa.

O bicho estava calmo, pouco se movimentava, mas já dava indícios co’o arfar púnico um preparo, um bote. Ana ia lentamente sendo arrastada para baixo. Marias e Claras a traziam de volta para a cuia de barro, à farinha grossa. Enquanto Bentos e Silvas botavam o chapéu na mesa, e a peixeira à algibeira. Chico não se encontrava, tinha ido buscar favo na casa de seu Miguézin. Ana amava o mel de Miguel, só um homi conseguia fazer com que brotasse tanto doce dum só lugar. Ana suspeitava que ele cozinhava a amargura da vida numa panela, deixava ela engrossar bem, jogava o mel em cima caramelizando toda a secura, fazendo com que dentro parecesse mais leve. Um sorriso espremido despontava na mesa.

O ventilador estava ligado, mas ouvia só como se fosse o calor da seca, e o mundo parado, até que chegasse uma brisa para brincar. O gado lá fora gemia breve. A farinha da estação tinha sido rala, o que produzia certo ruído quando o ar perpassava o vácuo da garganta às tripas. Parecia quase flauta. No verão tudo fica árido, menos a poesia.

Chico não aparecia nunca, e logo Maria Clara ia se perdendo junto a janela. De Bento Silva só restara o cinto de couro e a peixeira, que ficara por limpar. Ana correu os joelhos à porta e os viu assim, de relance, já tinindo no horizonte.

Cadê a foto que eles prometeram? Queria uma com todos, em frente a casa, co’os bicho todo do lado – como se sempre estivessem lá, parados, esperando sua chegada. Mas não. Não chegava foto, não chegava carta, não chegava nem beijo, nem cheiro. Só chegava vento e barulho. As hélices vivas ganharam do pensamento.

Ana era só Ana, mas vezalí e vezcá ouvia Iaiá a chamar por Ana Maria, ou Ana Clara, quando não Clara Maria. Sentia uma dó que tinha gosto de fubá, macaxeira frita e arroz com alho poró.

Com os remeleixos do pé, Ana dava forma a criatura que começava a crescer e por suas patas para de fora da mesa. Primeiro era bode, depois sabiá, Maricá, era bagre venenoso e era fome, bicho mais violento do Nordeste. Ana teve que levantar o corpo, estava quase se afogando na mesa molhada. Ana olhou para o cimo de sua casa e não sabia mais se queria que o cimo da sua vida fosse mais alto ou mais baixo. Importava a altura do teto? A gente não vê quando o vento acaba mesmo, que diferença faria.

Ana finalmente sentira o bicho que agora lhe agarrava a perna e fazia saia balançar. Que problema. E amanhã voltaria a trabalhar. Na volta, conversaria co’o sinhô Rosa, ele a ajudaria a tratar do bicho. Ana cansada, despediu-se do bicho. Bixo, bixo, bixo, fique quietinho, ela pediu. Antes de ir se deitar, deixou um vasilhame de água num lado da cozinha, assim a criatura poderia saciar um pouco da sede – afinal ela vinha dum lugar longe, onde a chuva mal se ademorava entre o oi e o tchau. Ana já conhecia o bicho de enquantantos, jamais o faria mal, mas ele tinha que ser realocado.

Ai, Ana, Ana. Se engana quem acha que Ana é só. De quando em quando, tomamos o barco do árabe arcaico para descobrir o som do eu em Ana. Se engana quem acha que Ana é só Ana. Por que Ana é Eu, e todo mundo tem um euzinho por aí que gosta de flexionar pelos pretéritos da vida. Esses que se escondem embaixo da mesa para evitar pisões e os etcéteras da língua. Mas… o senhor Rosa sabe, né? Viver é etcétera.

Ana só Ana
Eu só eu
Eu só Ana
Mas Ana não é só Ana
Ana é só eu
E se sou mais só que Ana
Eu sou só eu
Sou só
E Só
É só saudade

One comment

  1. Esses ensaios literários são ótimos porque nos levam a ir para as “nuvens da imaginação” e nada mais gostoso nesta vida terrena do que “voar” nas asas da imaginação (sem drogas, claro!). Já voei muito, já imaginei muito e, quando sobra um tempinho dessa dura realidade, curto imaginar, principalmente, no que mais acredito: um futuro próspero; felicidade para todos; paz de consciência para todos; trabalho; cansaço; descanso; e sonhos…muitos sonhos!

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