Verdade

Quero te contar um negócio, só cá, entre nós, que eu sei que vi! Certeza. Mas… Nossa!

Ele a segurava como se fosse coisa, como se fosse mastro que desse a guia exata para todos os rumos: asfalto, mar e planos altos. Como se fosse mastro que nem se preocupava com o leme, com vela e com casco. Ele a abrilhantava mais do que graxa de sapato, dizia ser de dourado suas cores e a erguia sobre cabeça como se troféu fosse.

E eu, desatinado, me retia a estibordo muitíssimo enjoado em ter de estar em sua companhia nessa viagem transatlântica. As ondas subiam e desciam e eu mais louco ficava, louco endoidava, e pensava: e se eu roubar a coisa? E se eu sumir com ela? Poderia assim dar posse dela aos porcos – que não sabendo do que se tratava, a engoliriam, e o problema estaria resolvido por algum tempo. Porém, na maré mais cheia, quando a lua está mais desapaixonada, o refluxo surgiria, o mal estar tomaria parte da jogatina suja. Engolir coisas sem saber o quê de sua coisura nunca é bom, diria o médico. Porcos, honestos que são, me devolveriam a coisa… E o que fazer dela?

Meu olho pestanejava, o Sol se escovava entre as nuvens e pouco a pouco seu brilho ia aumentado. O primeiro contato com o calor é sempre bom: ele começa por alterar seu estado molecular, sem contanto que sua fase mude num súbito. Se ao menos eu pudesse matar… Matar também não era uma boa opção. A justificativa do homicídio daria razão e causa à coisa – mal inicial que afetou os porcos.

Enquanto eu esperava, debruçado ao apoio do navio, esperando que os raios solares penetrassem assim, também devagar, pelos meus poros e ajudassem a clarificar a minha mente tão perturbada, um aglomerado de 3 pessoas se juntava agora para olhar debaixo da escotilha a coisa que o moço erguia, que agora tinha voz própria e se auto enunciava dourada. Que absurdo! Que grau complicadíssimo de metamorfose que nunca jamais transpassaria pelos meus pensamentos doentios. Era penoso ver e ouvir uma coisa que não existia ganhar voz própria e começar a caminhar com pernas peludas pelo convés.

Eu temia – temia mais do que a morte, ver com meus próprios olhos aquela coisa que uma vez fora só vento de pensamento humano, se meter numa vasilha extremamente compacta e lacrada de carne e osso. Eu temia por demais. Quem sabe, se fosse alto e belo, timbrasse palavras c’uma afinação de tenor, possuísse olhos castanhos miúdos e puxados, pele morena d’ouro bronzeada, eu também, um ser que se acreditava a salvo de vícios e asneiras, me apaixonasse (afinal, essas eram as características físicas que sempre me atraíram aos rapazes). Daí a paixão prosseguiria de tal modo: primeiro eu elogiaria a beleza de sua aparência, contudo, ressaltando que o seu conteúdo tinha a mais alta e nobre qualidade. Segundo, eu lhe levaria flores e pediria que me acompanhasse por um passeio pelo deck, convidá-lo-ia para dançar, tomaríamos champagne e eu embriagado de todas as formas possíveis, confessaria meu amor do mais puro e honesto desjeito de parolar – afirmando que eu já não poderia mais viver sem aquela presença, sem aquele sentido de vida. Terceiro, antes de ele me responder de volta se correspondia aos meus sentimentos, se me amava como filho, ou se me dizia que era bom sermos só amigos, eu lhe diria: não importa! Não importa… Por favor coisa (pois até agora eu tinha medo também de perguntar seu verdadeiro nome. Ora! poderia ser qualquer coisa, não é mesmo? Temia ser algum daqueles nomes com ismos no final), -repetindo- Por favor, coisa! não me abnegue d’um sentimento, quero amá-lo como agora para sempre, pois amar me faz grande e me sinto crescer. Achei minha vontade de viver em toda sua coisisse! Quarto, nós finalmente nos aproximaríamos como seres sociais, trocaríamos as fábulas de nossas vidas, nossos sonhos e anseios mais próximos ao coração, faríamos promessas de apresentar cada outro a sua nova família. Mas daí… Daí ele me diria que era filho da melhor mãe do mundo. Ele era filho da Verdade, mas como ser sujeito extremamente humilde que era, não se permitiria dizer “filinho de Verdade, verdadeiro é”. Bom, não ainda, pelo menos. Quinto, e eu esperaria por esta última confissão, até minha morte. Sexto, eu morreria feliz acariciando suas pernocas peludas, mas sem nunca de fato saber se a coisa era ou não aquilo que ela dizia ser.

Por final, vomitei todos aqueles pensamentos asquerosos no oceano. Os delírios fluíram de minha boca e foram colorir a água, que se encontrava assim meio sem graça, de ressaca. Pedi desculpa aos peixes por infectar sua casa e me retirei do espaço. Depois de tanto relutar, finalmente cedi aos meus conselhos médicos e tomei aquela pílula que era anti-enjoo e anti-mais três outras coisas das quais eu não me lembrava.

Relutante, segui meus pensamentos e minha esguia perna – a da esquerda, porque nunca se pode acreditar muito na Direita… a Direita é sempre metida a esperta – até a escotilha fedorenta, adornada por ¾ de passageiros (agora um menininho de 60cm tinha se enfurnava debaixo de uma mulher, analisava seu ventre para ver se reconhecia-o como de sua mãe). A coisa estava fazendo um furor! Seu original interpretante, criador mor ou talvez apenas ejaculante não sabia mais o que fazer com ela: tinha soltado o bicho mais barbudo e cabeludo no mundo! Não tinha mais controle sobre seus pelos, tentava fugazmente aparar com uma navalha suas monocelhas, mas ele se esquiva, zunia, caiporava que nem Êre de Ocaíta.

O medo já não era mais só meu, e as pessoas se apressavam em fechar a escotilha – a coisa vinha vindo! Tinha uma aparência de feltro podre e caminhava aos solavancos disparatando pelinhos pubianos por tudo que é canto! Enquanto todos se refugiavam, a espera que a coisa passasse, fosse embora e apenas deixasse o rastro de História, o menininho do ¾ saiu pela porta se meteu a bedelhar com a fuça daquela coisa. O menininho deu uma boa olhada pra cara do coisa, e largou risada que só menino de moral magra sabia dar. A inocência crua e cruel das crianças, como matava, como salvava.

– Nossa, feio que nem peste! Sujo que nem imundo! A mãe deve ter posto quatro dentes pra fora depois de tentar beijar esse cú!

Que horror! Um menino de 60 cm que já tinha cú na boca! Aparentemente a coisa pensou a mesma coisa, pois mesmo, se arrefeceu, mostrou-se assim acanhada, sem jeito de responder assim ao menino que ria em larga escalada, píncaros de geada, nevada solene, baita de friaca que gerou em sua pose e autoestima. O alívio me veio com as palavras que eu queria ouvir. Veja bem, eu não sei mesmo se a coisa era bonita ou não, as vezes demoro para achar o carvão, abrir a porta pesada do forno e por combustão incendiar aquela calha na roda chamada opinião, comboio de corda afiada pronto para estrangular. Sorte era a minha, de ter ali um menininho de trêzquartos, cheio de ódio no coração e me dizer que aquilo não era bonito não! Por favor né, ser bichado por criança é negação máxima à possibilidade de ser amado. A coisa se encolheu, foi pro canto do balde e da esponja, se fazendo de vítima, fingindo doer a dor mesmo que doía.

Fim do teatro, a cortina desceu e os adornos saíram de trás da porta. Todo mundo foi lá em cima, tirar satisfação com o cara que tinha pensado aquela coisa. Deram uma boa d’uma pitombada na cara dele. Cheguei a ouvir algo como Ai iai iai! Não faz mais isso! da moça do ventre errado. O final do meu dia foi na cozinha, repondo aquilo que eu tinha deixado pros peixes.

Só depois de muito tempo, passado o rio Ganges, acabado a viagem, chegado em casa, é que fui perceber que eu tinha no bolso uma dessas coisas. Côisa, sabe? Coisa mesmo. Dessas que a gente acha que cria e descobre sozinha e tem vontade de mostrar pra quem tá perto? Foi surpreendente! Foi assim: Ham? então eu tenho uma coisa, coisa só minha? Uma coisa feito coisa mesmo, que eu acreditava que via, que brotava do suor do furo do meu bolso. Eita. Curioso. Eu via que ela também era peludinha, mas era assim, menor que um troféu, do tamanho de uma bolinha de gude. Coisa meiga, coisa fofa, coisa minha.

Metade eu engoli pra ver se digeria, a outra metade eu joguei no lixo e segui a vida.

No final do texto eu dei graças a Deus por me olhar no espelho e ver que apesar de eu usar todas essas flexões de gênero masculino eu ainda era mulher, e confiante, e alegre, e redondamente duvidosa sobre tudo.

ps: ainda dou graças à alguém porque não gosto de deixar palavras sozinhas, e Deus é um nome bunitinho, id est, cosmética ex cosmetikés.

ps2: eu esqueci o que queria te contar… Sabe, lá no começo do texto? Quando eu começo dizendo que quero contar um negócio? “Quero te contar um negócio: socar entre nós…” Mas daí aparece essa coisa e atrapalha tudo? Pois é, esqueci. Bom, devia ser coisa mentirosa então, tipo lorota bem cabeluda, sabe? Porque se é verdade, ela vive e a gente não esquece, não é mesmo? A Léti sabe.

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