A Pregação das Ondas do Mar

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar

Quando o relógio bater as horas vazias, pegue sua natureza vagabunda e se desfaça dela. O ninho, estranho no berço, mais estranho será no recomeço. Cative os outros com a mesma efemeridade dos significados das palavras: cada dia é um amor diferente. Dobre e torça suas expressões, até que elas caibam numa sentença que fuja a morte. Repita, repita, repita o que for de bom gosto. Ouça a corneta dos anjos que não toca para ninguém, a não ser você. Repita, repita, repita tudo aquilo que sua mãe Sofia lhe disse para fazer, nunca faça. O saber te engana. Sobe na sua cama, a consciência reclama, ela não precisa acordar. Uma vida dormida também é vida, e quem sabe mais vivida na cama. Ama a teus lençóis com o mesmo amor a pele e a luz que da cortina espia. Tenha em mente o grau das almas que jamais poderá medir, treina fingir, treinar pregar sua presença. Dialogue com as cadeiras, elas sempre estarão sentadas para te ouvir. Dê bom dia as flores, quanto mais venenosas, mais solitárias elas são. Ama a tua própria solidão, quando te esqueceres dela, não serás mais livre, há sempre uma sombra amarrada em teu pé. Tu carrega uma sombra, assim como a pedra também carrega a dela, mas apenas tu conhece o peso da tua. Tu achas que conhece. Já que as outras sombras lhe são tão estranhas, tão tolas e levianas, vivem numa leveza.

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar.

Toma o chá de manhã, se precipite na embocadura da espuma, deixe ferver a boca e agradeça ao arroubo de calor de toda manhã. Olha pro Sol e sente pena, ele é um coitado, toda manhã também é roubado. A vida é a maior ladra de todas, tira de alguns para dar aos outros. Tu também é ladrão, ninguém vem ao mundo santo. Jesus era um pobre coitado, achou que te livraria do pecado, mal sabes que tu nasceu sentado chorando querendo voltar pro antro. Todo berço é estranho. Não tenha duvidas! A dúvida é o maior erro necessário regularmente cometido. Saiba disso. Quando souberes, sentirá se livre para rir da seriedade das camélias – que séria não nasceu, foi trabalhada pelas mãos dos homens. Quando souberes, lembrará de tua mãe – que séria não nasceu, foi deformada pela força do tempo. Quando souberes, será superior aos seus pés atrofiados, velhos, limitados – tu dançaras em todo lugar, até onde não foi feito para dançar. Toda manhã tu acordarás tonto, de tanto giros que deste ontem, e de novo, o berço lhe parecerá estranhamente familiar. Tu tomarás o chá, e sem ter que pedir, a música começa a tocar.

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar.

Ele colocou a sela no cavalo de sapatos abotinados. Esse é um escravo, ele disse. Mas olha com teus ouvidos como pulsa perfeito o compasso. Ele dança sem nunca ter pensado a vida. É uma peça, o ator, o artista que jamais veio a saber o que é o palco. Vê? É a mesma jaula, e ele nos ilude tão perfeitamente. Corre, marcha, pula, come, voa encantadoramente. Esse ator, esse cavalo, que nome posso dá-lo senão Liberdade? Vem, me ajuda a limpar suas cristas que elas andam tão sujas e feias. Sabe, vou ter que vendê-lo um dia, é assim que te sustento, é assim que continua a fazenda. Preciso que ele esteja bonito. Quanto mais alto a beleza, maior o preço da venda. Eu sei, tu ficas triste, mas eu me contento. Olha para o lado, aquele corcel negro que vem lhe afagar – velho, pobre e doente, com esse tu sempre poderá ficar. Tem uma ferida no casco, não me presta o trabalho, mas olha como é amigo e bonito, ele te ensinará a dançar. Carregue o Sonho para longe, vá brincar, quando for a hora eu venho te buscar para o almoço. O corso do cavalo junto ao seu osso, atrás das figueiras, quem dirá que são duas coisas? Viva quantas realidades tiver que viver. Mas quando a hora chegar, eu te chamo pra jantar. Vou por tua mãe num prato de ceviche, vê se come com gosto.

Quando a aula for paga, vem pros meus braços descansar.

Um dia você tem que aprender uma coisa. Eu devia ter te falado que a tua mãe não é a tua mãe. A tua mãe é o mar. Tu vê aquelas costas? Gozadas? Tu vai chamar de Maceió. E ali, aquelas bundas, cheias de suntuosidades? Lá é onde todas as mãos gostam de passar, e a cada toque que lhe prestam nasce um morro novo, e cada morro um relevo, que nem o morro mais se conhece. Eu chamo aquela terra Pai, pois foi ali que colocaram o filho, e do lado o Espírito Santo. Se ainda tem algo de sagrado ali eu não sei – do que já foi profanada aquela terra, todo dia é uma foda nova. Doí, mas ela parece que gosta. E ninguém deveria mexer com o gosto do Pai. Às vezes eu tenho raiva do Pai, e queria me mudar. Me sinto abandonado, desprotegido. Aprendi que o Pai era o medo e a bondade. É por isso que eu digo, o meu berço foi um tanto estranho. Pai que era bunda que era mãe. E as costas ali, sempre sofrendo? É difícil perceber o corpo inteiro, e quando sinto que é tudo uma coisa só, meu cérebro começa a dar defeito. Tenho que recomeçar. Repito, repito, repito: o sonho me ensinou a dançar.

Todo dia é Dois de Fevereiro

Chegou, chegou, chegou. Afinal o dia dela chegou. Vou me embora daqui, não antes de me despedir. Quanto nome tem a rainha do mar? Quanto nome tem a rainha do mar? Mamãe, eu vou me embora, não antes sem chorar. Deixo a calma molhar a ponta dos meus pés, sentir a paciência da areia do mar. Sei que desse meio devo me separar. Aprendi a dançar, agora vou aprender a ser onda do mar. As ondas se propagam silenciosamente, com graça e ligeireza, porque nada as detém nem elas são prisioneiras da nostalgia. Uma sequência de intervalos e te dou a música. Uma sequência de separações e te dou a vida. Seguindo a imagem dessas ondas sucessivas. Hoje eu esqueço que tenho duas mãos. Para que ter duas mãos? Eu tinha duas mãos e nada mais. Aprendi a dançar, pegar essa coisa chamada memória e sem meiguices a magoar. Tudo vai se repetir e nada nunca será o mesmo, agora eu, onda do mar. Quando o relógio bater as horas vadias, toda natureza vagabunda vai ser onda e se quebrar.

Canto para Iemanjá

Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar
Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar
Se você quer sobreviver nesse mundo, aprende a dançar
Quando a aula for paga, vem pros meus braços descansar
Todo dia é Dois de Fevereiro

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