Anacoluto

Nasci, tive vergonha de todas as minhas falhas. Um anacoluto desgarrado, que mirou longe demais e nunca teve certeza do alvo. Eu, se dissesse que todas as minhas escolhas foram por parcimônia, que vergonha. Sempre tive medo do Inegável, mas fui mestre do engano – virava olhos olhando por dentro e me sorria o sorriso que dizia tu és perfeito. Hoje o que sinto só poderia se traduzir num verbo aorista da azia, o estômago que se torce para digerir tamanhos. O Sol já tinha se despedido, eu, de grandeza despido. Veludosas vozes vulcânicas, não preciso de ninguém para me dizer que sou pequeno. Só já sou bastante. Um vasto ponto numa folha em branco.

Morri, procurei por linhas a quais me agarrar, curvas, precipícios, qualquer forma que a mim somasse. No caminho vi surgir letras, que traços! Marcavam o desespero de uma nova era – a quem se juntar, quais palavras abraçar, o bacanal das melodias, o estupro harmônico da alma, como alcançar o sublime estado de ser? Pueril. O contente sonho de para sempre se sonhar criança, se sonhar feliz sem saber. Mais que sonhar, si acreditar. Das dúvidas me preenchi, dos oceanos me usei, refúgios. Bastante obstante, ponto vim ao mundo e ponto parti.

Nasci, caminhava como se já conhecesse o antes e o depois. É fácil: ou tudo é erro, ou tudo é acerto. Sentei nos bancos mais baratos, aquele que mal se vê o palco, que se relanceiam as atuações, e mesmo assim sentia, jogarem os discursos de lá para cá. Aqui e ali. Hither and thither. Pro quiproquó da fala. Foi divertido, algum cão latindo me fez esquecer o conflito. O mais doce da vida é se distrair dela. Por isso música, que não é nada, senão intervalos. Perto ou distantes não importa. São intervalos. Alguém respirava conscientemente quando saí da sala, estava tão focada no presente que nem notou o despencar da bolsa de valores.

Morri, detestava as propagandas. O ápice da civilização. Vermes do intelecto pululando mentes, buzinas e estrondos entorpecendo células brancas, e no que parece um milagre não planejado, os pés incidem na comodidade do ruído. Numa brincadeira mal planejada, tudo pede para ser olhado, observado, com presteza atenção. Fui cego de dois olhos: o de dentro e o de fora. Um desgraçado desagradável, morri. Fazendo sorrir alguns e poucos, não me disseram, porém pensei. Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não fiz. Que besteira.

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