Poemas Sem Luxo

I.
Mariana com o deserto no cabelo e a vassoura na mão
Espera por um homem que nunca vai voltar. Talvez ele volte.
A chinela de rasteira no dedo está cansada
A vida parece uma paisagem pintada
Onde não coube a minha silhueta de mulher
Vastos olhos de homem me amedrontam
Só amei uma vez
E gostaria de nunca mais amar de novo
Numa árvore de monóculos
Os pássaros zombam de mim
Serafim é o primeiro a dizer
Fim.
Antes do verbo chegar

II.
Assombroso
O Sol se levanta para as menininhas brancas da América
Ensinaram pela metade o abecedário pro muleque
Que queria jogar futebol
Esperaram ele voltar depois da queda do Alemão
Ele, com seus quarenta carbúnculos de idade
Corria para vencer o juros
No revezamento 3×4
Das Olimpíadas no Rio de Janeiro
As menininhas choraram
Pois o Giba não estava para apanhar a bola
Quando ela bateu no chão

III.
Minha filha, agradeça
Por não se chamar Philomela
Por ainda ter a língua na boca
Por rodar bambolê magreza
Desfilar coxa de telenovela
E não se chamar
Philomela

Se te cortarem os cabelos
E de brasa a força estrangalharem teu fogão
Não foi por causa do nome
Foi a fome que bateu na educação

IV.
Sonho com um mundo
Feito de estradas
Distraída me esqueço
De virar na rua de Fevereiro
E o que me resta
É uma sala apertada
Onde um finge ensinar
O outro finge aprender
Enquanto escuta as marchinhas
Deformadas no seu porta TV

V.
A noite foi longa
Durou uma vida inteira
A festa em que as Musas foram convidadas
Estava vazia
Veio a esperança me bater a porta
Descomedida
Onde já se viu!?
Mandei ela pro diabo

VI.
O porteiro não é mais um porteiro
Ele é um homem com celular.
O estudante não é mais um estudante
Ele é uma aberração da tecnologia.
O bebê pode ser um bebê
Ou pode ser um robô
Só tem quem encomendar.

VII.
Displasia carioca
Odeio doenças
Parecem preocupações que se tornaram verdade
Cidade, cidade,
O prefeito disse que ela
Foi andar descalça na rua
Tomou tiro no peito e no joelho
Pra aprender que se quiser ser preto
Tem que se vestir direito
Jogar hidróxido no cabelo
Dançar no asfalto até a Lei dizer
Para
A inscrição na porta dizia
This is not Africa
Os turistas se confundiram
Levaram embora a pompa dos ducados
E foram buscar outras colônias para fazer de tapete

VIII.
Eu tenho duas mãos
E uma vontade danada de fazer besteira
Tá tudo dando errado
Meu carro quebrado
Meu seguro cortado
Meu marido desempregado
Meu filho desplanejado
Minha irmã me disse,
Vai, Carla! ser vadia na vida
Te ensino a ganhar os trocados
O trabalho é mole com certa dureza
Ajuda se você gostar
Ou falsear na hora da prensa
Porque homem que é homem mesmo
Nem liga pra o quê a gente pensa

IX.
Tem um papagaio
Dentro da minha cabeça
Ele queria algo mais privado
Mas dei de falar tudo o que ele pensa
Hoje ele vive solto
Nas páginas virtuais dos monges colombianos
De um salto ele surge
No café da manhã
Preso no computador
Tento não olhar
Não dá,
Tem outros papagaios querendo falar
Me acalmo
Me esquivo
Pro meu apreço
Ainda existe uma gaiola lá

X.
Um homem gritou
Vai se foder!
Meme de cú é rola
Capitalismo de cú é rola
Filosofia de cú é rola
Mito de cú é rola
Quando acabou,
Voltou para sua caverna
E ficou a desenhar enormes manadas de feras
Amanhã tinha caça
Que mal amanhã lhe esperava

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